arquivo

Cultura livre

O mundo está vivendo uma guerra entre culturas. De um lado, a cultura da transparência. Do outro, a cultura do segredo. É isso que está em jogo na polêmica do WikiLeaks, que agitou o mundo nas últimas semanas e certamente vai continuar agitando por muito tempo mais.

As novas tecnologias da informação criaram a possibilidade de um nível de transparência antes impensável. Se não houvesse computadores ou internet, jamais alguém seria capaz de copiar e distribuir 250.000 documentos, como o Wikileaks acabou de fazer. Agora, informação voa e se reproduz infinitamente a custo zero.

Mas, ao mesmo tempo, houve um investimento tremendo em tecnologias de segurança. Pense num aeroporto atual. Pense na quantidade de senhas criptografadas que você precisa conhecer para sacar 10 reais no banco. Pense na quantidade de catracas, sensores e câmeras pelos quais você passa todo dia.

Obama fez da transparência um tema fundamental de sua presidência, ao ganhar a eleição baseando sua campanha eleitoral numa plataforma online aberta. Depois de eleito, ele fez circular um memorando endereçado a todos os chefes de departamento e de agências do governo federal. O assunto do memorando era “transparência e governo aberto”. Ele determinava que sua administração estava comprometida a “criar um nível sem precedentes de abertura no governo”, de forma a “fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia.”

Realmente, mais abertura tende a estimular eficiência e eficácia. Se todas as decisões de todo mundo são registradas e disponibilizadas pela internet, e qualquer cidadão pode saber o que cada servidor público faz, isso tem pelo menos duas consequências. 1) os mal-intencionados tendem a ser desmascarados. Mas, mais importante: 2) os bem-intencionados poderão receber ajuda de fora, de alguém que conhece um jeito melhor de fazer as coisas.

Num videogame online que já espalhou pela rede, o mocinho é Assange, que precisa roubar arquivos do laptop de Obama usando um pendrive

Irônico que esse mesmo Obama tenha ido parar no lado oposto do debate, tentando encontrar algum instrumento legal que ajude a fechar o WikiLeaks e talvez até permitindo que seu governo trame com a justiça sueca para prender seu criador com base em acusações no mínimo polêmicas. Certamente decepcionou muita gente.

Mas eleger Obama (ou Hillary) como o vilão da história é uma distorção. O fato é que a maior parte das decisões realmente importantes do mundo inteiro ainda é tomada em segredo e mal explicada para as pessoas afetadas. Governos e grandes empresas discutem aquilo que realmente importa atrás de portas fechadas. E, no mundo inteiro, diplomacia envolve necessariamente uma dose altíssima de dissimulação: país nenhum diz em público aquilo que realmente quer (obviamente, uns países são mais confiáveis que outros).

O mundo seria melhor se houvesse menos segredo. A maior parte das injustiças do mundo tem em sua base uma assimetria de informação: numa relação entre duas partes, uma sabe mais do que a outra sobre os termos da relação. Isso aumenta a chance de essa parte se dar bem. Aumenta também a chance de sempre os mesmos se darem bem, porque têm mais acesso às salas fechadas.

Ou seja, se houvesse completa transparência, em todos os níveis, tudo seria mais justo. Pouca gente discorda disso. Por outro lado, ninguém é bobo de abrir mão de seus segredos unilateralmente. Todo mundo é a favor de transparência, mas ninguém quer começar. Por isso Obama está tão contrariado.

Na minha opinião, a guerra entre transparência e segredo é a grande questão do nosso tempo. E está longe de estar resolvida. Teremos cada vez mais transparência no mundo, turbinada por novas tecnologias. E, paradoxalmente, teremos também cada vez mais segredos. O mundo vai investir cada vez mais dinheiro em sistemas de segurança mais eficazes. Haverá uma epidemia de políticos querendo aprovar legislação restritiva, negando acesso a informação.

Meu palpite é que, com as tecnologias de informação avançando mais e mais, vai chegar o dia em que as tecnologias de segurança ficarão caras demais. Aí, manter segredo vai se tornar anti-econômico. Com isso, vai valer mais a pena fazer as coisas direito e ser transparente sobre elas. Mas talvez eu esteja só sendo otimista…

Não é todo dia que a revista Wired cita Karl Marx.

A Wired é uma deliciosa revista sobre tecnologia e cultura impressa no Vale do Silício, na Califórnia, o coração inovador do capitalismo, lá onde as tecnologias que têm mudado o mundo nascem. Portanto, não estou falando do Pravda ou do Granma. Na edição de fevereiro, a revista trouxe na capa a manchete “A nova revolução industrial” e previu que o mundo da indústria, dos produtos, dos objetos está prestes a passar pela mesma ruptura que o mundo dos arquivos digitais, das músicas e dos filmes passou na última década: o colapso dos gigantes e o alastramento de nanicos inovadores. Em outras palavras, átomos são os novos bits.

2010_02

Marx, em sua crítica ao capitalismo, afirmou que, com a industrialização, um artesão deixou de poder comprar as ferramentas de seu trabalho. Um sapateiro jamais teria dinheiro para bancar as máquinas de uma fábrica de sapatos, um mecânico, por melhor que fosse, jamais poderia competir com Henry Ford. Portanto, estávamos destinados a viver num mundo onde os capitalistas – donos dos “meios de produção” – exploram os trabalhadores. Daí a necessidade de uma revolução.

Pois a matéria da Wired, escrita por Chris Anderson, editor-chefe da revista e autor dos best sellers “Grátis” e “Cauda Longa”, mostra que essa revolução pode ser tecnológica.  Anderson afirma que, cada vez mais, um cidadão comum, com talento e uma boa ideia, pode sim ter acesso aos meios de produção. Já há um monte de fábricas chinesas que atende pessoas físicas pela internet e produz qualquer coisa que alguém imaginar. Há centros open source como a TechShop, uma oficina americana que dispõe de máquinas sofisticadíssimas para produzir protótipos e aluga-as para qualquer pessoa por uma pequena taxa. Há impressoras 3D, que produzem objetos tridimensionais a partir de um arquivo de computador, para fazer protótipos e testar produtos. E essas impressoras já custam só 1.000 dólares nos EUA. Há sites que comercializam produtos criados na garagem e repartem os lucros com justiça. Enfim, quem tiver uma boa ideia para atender a uma necessidade do mercado e souber como concretizá-la já pode lançar um produto e ganhar dinheiro sem precisar ser uma empresa gigante. Na verdade, provavelmente vai levar vantagem sobre uma empresa gigante, porque tem mais agilidade e menos custos para manter uma estrutura hierárquica.

Anderson conta, por exemplo, a história deste carrão aí embaixo:

buypage_pic450x255

Trata-se do Rally Fighter, um carro criado colaborativamente por uma comunidade de amantes de carros que se encontrou na internet, num site criado por uma empresa pequena chamada Local Motors. Primeiro houve um concurso para escolher o visual do carrão: ganhou um desenho do jovem designer Sangho Kim, que levou um prêmio de 10.000 dólares. O projeto então foi desenvolvido em conjunto pela empresa e pela comunidade. A empresa cuidava para que o veículo funcionasse direito e fosse seguro, a comunidade caprichava para deixá-lo bonito e criativo. O carro vai ser lançado em junho, e é totalmente “open source” – ou seja, código aberto, qualquer pessoa pode ver e copiar seu projeto. O mais interessante é que a Local Motors vai permitir que pessoas comuns projetem acessórios para o Rally Fighter – ou seja, o consumidor pode comprar um carro já equipado com peças que ele mesmo inventou. É um sistema parecido com o do iPhone, que permite que desenvolvedores do mundo inteiro criem aplicativos para o telefone e, inclusive, ganhem dinheiro com isso.

A Local Motors não vai matar a Ford, claro. É uma operação pequena. A empresa tem só 10 funcionários (aumentará para 50 ainda este ano). Mas pô: eles fazem carros!

Para provar que sabe do que está falando, Anderson contou que até ele próprio está embarcando na nova revolução industrial. Ele também criou sua própria indústria: a DIY Drones. Começou da mesma forma que a Local Motors: com um site para aficcionados. No caso, amantes de “veículos aéreos não-tripulados”, ou “drones”, aqueles aviõezinhos-espiões comandados por computador que sobrevoam as coisas tirando fotos (o exército americano tem um monte deles, que custam milhões de dólares cada um). Anderson contratou o melhor sujeito que apareceu lá no site – um tímido nerd mexicano de só 21 anos chamado Jordi Muñoz, que virou o chefe de tecnologia da DIY Drones. Usando um aviãozinho de controle remoto, sensores disponíveis no mercado e equipamentos fáceis de se conseguir, como um GPS, Muñoz, Anderson e a comunidade do site desenvolveram um avião-robô e um balão-robô, que estão à venda pela internet por apenas algumas centenas de dólares. A DIY Drones, criada por Chris Anderson na sua garagem há só dois anos, já está perto de valer 1 milhão de dólares.

Claro que essas histórias incríveis não poderiam acontecer aqui no Brasil – onde a baixa qualidade da produção e a burocracia kafkiana estão no caminho dos inovadores. Claro também que, por mais que essas novas empresas sejam fascinantes, há uma lista enorme de riscos ligados a esse novo jeito de produzir – imagine o impacto ambiental que indústrias de fundo de quintal podem causar. Mas a reportagem me fez mais uma vez me admirar com o incrível potencial transformador destes tempos em que vivemos. Vou morrer num mundo bem diferente daquele onde nasci.

Na semana passada, argumentei que o Nobel da Paz de Obama sinaliza que o mundo mudou. Hoje quero falar de um assunto parecido, mas dessa vez tem a ver com o Nobel de Economia.

Você conhece o Nobel de Economia, não conhece? É aquele prêmio outorgado anualmente pela Academia de Ciências da Suécia a um homem de terno e gravata. Pois então. Vocês viram o que aconteceu com o Nobel de Economia na semana passada?

Clique logo aí embaixo no link para continuar lendo este texto. Mas, antes, quero fazer um aviso: dependendo do seu senso estético e do seu grau de rigidez ideológica, a imagem que você vai ver pode ser chocante. Clique apenas se você achar que está preparado.

gov20

Dê uma olhadinha na história da tecnologia nas últimas décadas e você vai perceber que as invenções que mudaram a sociedade e a cultura mais profundamente não eram simples produtos: eram plataformas.

O computador pessoal é uma plataforma. Sozinho ele não faz nada. Mas seu poder de processamento pode ser usado por uma infinidade de softwares. A invenção do computador gerou um surto de inovação que mudou o mundo.

A internet é outra plataforma. Ela não passa de uma rede de conexões. Mas como é uma rede aberta, qualquer um pode utilizá-la para inovar, para criar sites, para divulgar conteúdo, para trocar ideias, para inventar ferramentas.

O google, a mais bem sucedida empresa da internet, é outra plataforma – uma plataforma de busca que fez nascer uma economia na internet. Utilizando essa plataforma aberta qualquer site pode achar um público e gerar receita divulgando anúncios.

E o iPhone é outra plataforma. Na origem, ele era só um telefone mais legal e bonitão. Mas, como é relativamente aberto, gerou outro surto de inovação. Dezenas de milhares de pessoas e empresas criaram aplicativos para o iPhone, aplicativos que a Apple sozinha jamais seria capaz de inventar.

Plataformas são democratizantes, inclusivas. Cada nova plataforma convida uma multidão cada vez maior de pessoas a participar do trabalho de criar coisas novas. E quanto mais gente criando, maior a chance de coisas transformadoras surgirem.

E se transformássemos o governo em uma plataforma aberta?

É essa a ideia de Tim O’Really. O’Reilly é um visionário profissional. Sua sacada mais famosa foi ter criado a expressão “web 2.0”, mas faz mais de 20 anos que ele se dedica a apontar a próxima grande onda – e quase sempre acerta. O’Really é o organizador do gov2.0 Summit, que começa amanhã em Washington. Escrevo do avião, a caminho de lá.

Na analogia de O’Reilly, governos hoje se parecem com uma “vending machine”, aquelas máquinas de vender refrigerantes ou salgadinhos. Você coloca o dinheiro (os impostos), a máquina solta um pacotinho de amendoim (o serviço público). Se o amendoim não vier, o máximo que você pode fazer é chacoalhar a máquina (protestar, fazer passeatas, gritar “fora Sarney”).

Na visão de O’Reilly, devíamos substituir o governo-vending-machine por um governo que funcione mais como um computador, a internet, o google, o iPhone. Uma plataforma aberta, a partir da qual todo mundo pode inovar, criar, colaborar. Se o serviço é ruim, você melhora. Um governo de código aberto.

datagov11

Funcionaria assim: o governo disponibilizaria toda informação disponível sobre a sociedade – todos os dados, todos os números, todo os fatos (o governo Obama está tentando começar a fazer isso com o site data.gov). Aí, qualquer pessoa que quiser inventar um “aplicativo” para a plataforma-governo teria direito de fazer isso. O governo deixa de ser o agente da administração – passa a ser apenas a plataforma sobre a qual qualquer cidadão pode se governar.

Aplicativo de governo? Como assim? Não sei bem ainda. Tudo isso ainda parece bem vago, embora promissor. Assim como seria impossível prever quais softwares surgiriam antes da invenção do computador, também não dá para prever como o governo mudará quando virar uma plataforma. Mas o Summit em Washington será uma primeira reunião entre gente do país inteiro envolvida em projetos de transparência, democracia, cidadania, participação, colaboração, para começar a formular essa ideia. Toda a cúpula de tecnologia de informação da Casa Branca vai estar lá, além de gente ligada aos projetos mais inovadores de estados e cidades, comandantes militares, inovadores da saúde e educação, autores como o ótimo Clay Shirky e empresas como a Google e a Microsoft.

O Brasil não poderia estar mais longe dessa realidade. Aí na terrinha o governo não apenas não é uma plataforma aberta como nem sequer a vending machine funciona direito. Colocamos um monte de dinheiro e o amendoim vem murcho. E, por mais que chacoalhemos a máquina, o Sarney não cai.

Mas às vezes tenho a esperança de que essa nossa desvantagem vire uma vantagem. Sabe a história do atraso que acaba ajudando novas tecnologias a se espalharem? (Exemplo: no Brasil faltavam linhas fixas de telefone e isso acelerou a adoção do celular.) Quem sabe nossa vending machine quebrada acabe sendo um incentivo para as pessoas adotarem de uma vez o governo-internet. Mesmo que os Sarneys e os Azeredos da vida não queiram. Isso sim seria uma “nova independência” – independência dos políticos.

Uma das torres hackeadas no Iraque

Uma das torres hackeadas no Iraque

Olha só a história que ouvi numa palestra (em inglês).

O sargento Martin Stadtler, do exército americano, foi enviado ao Iraque, e designado para uma base militar perto de Mosul. A base era gigantesca – uns 24 quilômetros quadrados – e cercada de forças hostis. Para protegê-la, havia em seu diâmetro diversas torres de observação, de onde duplas de soldados montavam guarda. Só que havia um problema. A base era tão grande que a distância entre as torres era maior que o alcance do rádio. O exército estava tendo que brincar de telefone sem fio – colocou soldados parados entre uma torre e outra para retransmitir as mensagens. Era uma solução cara, desconfortável, ineficaz, perigosa. A segurança da base toda estava ameaçada.

Por sorte, Stadtler, além de sargento, é parte da comunidade “open source” – ou código aberto, ou software livre, um hacker, programador habituado a modificar softwares e trabalhar colaborativamente, eventualmente infringindo leis de direitos autorais. Se Stadtler fosse usar os caminhos oficiais para resolver seu problema – comunicar seus superiores e solicitar rádios novos com alcance maior – a solução levaria talvez uns 6 meses e custaria pelo menos alguns milhões de dólares. Quando os rádios chegassem, é bem possível que seu pelotão já não tivesse mais naquela base. Em vez disso, o sargento fuçou nas latas de lixo da base e encontrou um laptop velho e várias sobras de fios. Usando software livre – código de programação disponível gratuitamente na internet – ele construiu uma rede de telefones sem fio interligando as torres. O custo foi virtualmente zero, a instalação levou alguns dias e o problema foi resolvido.

A história de Stadler ilustra com perfeição a diferença entre o jeito tradicional de governar e um jeito diferente, que está se espalhando pelo mundo, embora a mídia não fale nisso e a maioria dos políticos nem saibam do que se trata. O jeito tradicional é assim: o governo faz um grande projeto, todo pensado bem longe de onde o problema está. Geralmente contrata uma corporação gigante para executar o projeto, e paga a ela uma fortuna de bilhões. Isso se for um governo capitalista. Governos comunistas preferem executar o trabalho por conta própria – igualmente gastando bilhões. O jeito novo, quando existir, será assim: o governo não tenta centralizar nada. Ele disponibiliza de graça as ferramentas para resolver problemas e dá autonomia a quem está lá pertinho do problema para resolvê-lo do jeito que achar melhor.

Muita gente tem celebrado a importância de os Estados Unidos terem eleito seu primeiro presidente negro. Legal mesmo. Mas acho que mais importante ainda é o fato de que eles elegeram o seu primeiro presidente nerd. Obama não sabe fazer telefones sem fios, como Stadtler, mas, até por uma questão geracional, entende bem as vantagens de trabalhar de maneira descentralizada, em grandes redes, sem fazer segredo, confiando nas soluções criativas de indivíduos, dando poder de decidir para gente inteligente, que aprende com os erros.

Um documento fundamental emitido logo no começo de sua gestão – que passou quase despercebido em meio a crises mundias e quetais – foi um memorando dirigido a todos os chefes de departamentos e agências executivas. O nome do documento era “Estamos tentando. Por favor nos ajude”. Veja um trecho:

“Minha gestão está comprometida a criar um nível de abertura sem precedentes no Governo. Vamos trabalhar juntos para garantir a confiança do público e estabelecer um sistema de transparência, participação pública e colaboração. Essa abertura vai fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia no Governo.”

Esse conceito de “abertura” de Obama – transparência, participação, colaboração – é exatamente o que o movimento do software livre vem defendendo faz tempo. A ideia básica: um governo menos onipresente, menor, projetos menos faraônicos, mais poder para a sociedade resolver seus próprios problemas. Algo como um pout-pourri do que existe de melhor nas ideologias da esquerda (combate às injustiças, engajamento da sociedade, enfraquecimento das corporações, colaboração) e da direita (estado pequeno, liberdades individuais, sociedade cuidando de seus próprios problemas). Sem autoritarismo, doença crônica das duas ideologias.

Justiça seja feita: embora ninguém comente o assunto, o Brasil também tem feito progressos interessantes nessa seara. Na gestão Lula – embora muito provavelmente sem qualquer participação dele – o Brasil se tornou uma potência do software livre. É com software e hardware livre que se está construindo o programa Pontos de Cultura, uma rede de focos de produção de ideias espalhados pelo país, sem controle do governo. Num país tradicionalmente dominado por pouquíssimas vozes, onde a cultura é autoritária e a elite gosta de achar que o povão é um poço de burrice, isso é um baita avanço.

Tudo isso pode parecer pouco importante, mas é talvez a mudança mais relevante acontecendo atualmente para a democracia mundial. Se o movimento do software livre conseguir hackear os governos do mundo, criando canais de comunicação direta com a população, dando espaço para que cada um possa se organizar e construir um pouquinho da sociedade, teremos dado um passo gigante na direção de uma vida política com mais civismo, mais sentido, mais sustentabilidade. É claro que tem muita gente poderosa empenhada em que isso não aconteça – nos governos e nas corporações.

Semana que vem, o visionário Tim O’Reilly, o homem que inventou a expressão web 2.0, vai organizar em Washington o gov2.0 Summit, uma conferência recheadas de figurões da Casa Branca para discutir o potencial da internet para transformar a democracia e o mundo. Estou arrumando minhas malas para assistir. Depois conto para vocês.

O Brasil é um país onde o corporativismo chega às fronteiras do absurdo. Aqui advogados fazem questão de falar uma língua que ninguém mais entende, de forma a tirar do povão a possibilidade de se defender sozinho. Acadêmicos só discutem com seus pares, e ignoram a massa ignara lá fora. Policiais não multam juízes, generais e otoridades em geral. Médicos escondem informações sobre doenças. Políticos se acham um tipo especial de ser humano, imune à lei (segundo o presidente, por exemplo, Sarney não é “pessoa comum”).

E jornalistas têm o monopólio da produção de notícias. Pessoas sem diploma de jornalismo são proibidas de divulgar informações ao público.

Quer dizer, eram.

O Supremo Tribunal Federal derrubou ontem à noite essa exigência absurda, que por anos empobreceu nosso país. Forçar todo mundo que faz jornalismo a ter a mesma formação universitária é homogeneizador, acaba com a diversidade da informação, torna impossível que a imprensa reflita  a sociedade. Nos EUA, advogados, engenheiros, filósofos, cientistas trabalham na mídia. E a imprensa é 3 trilhões de vezes mais interessante que aqui. Lá tem até jornalista que sabe fazer conta!

Não que eu não tenha aprendido nada na faculdade de jornalismo. Aprofundei lá meus conhecimentos sobre substâncias inebriantes e me tornei um dos grandes jogadores de pebolim da minha geração, entre outras coisas. Mas nada que se ensine na faculdade de jornalismo justifica o privilégio do monopólio da produção e divulgação de informação para a sociedade.

Comemoremos. O Brasil ficou um pouquinho menos corporativo.

Ah, se bem que para cada avanço há um retrocesso… Não querem agora que os DJs sejam obrigados a tirar diploma para poder colocar som?

175245818_a63b22e281

Foto: Felipe Skroski / Twitter

"Prendam esta criminosa, marujos!"

"Prendam esta criminosa, marujos!"

Eu queria ter escrito na semana passada sobre a prisão dos caras do Pirate Bay, os suecos que criaram um sistema de compartilhamento de arquivos. Os caras que, depois de anos empunhando a bandeira (cheia de ossos) da liberdade individual, foram finalmente vencidos na Justiça pelos seus arqui-inimigos, a indústria de entretenimento. Mas não consegui pensar em nada muito original para dizer.

Aí hoje encontrei no Gizmodo Brasil este artigo do Brian Lam (editor-chefe do Gizmodo americano). Ó o que ele diz:

Eu não acompanhei o caso tão de perto, também não sou um viciado em BitTorrent. Mas se eles são culpados, acho que também sou.

Mais:

Eu dou conta de comprar o que consumo, ao contrário de quando eu era um cara quebrado na faculdade. Mas eu ainda roubo quando não quero passar 45 minutos indo ao cinema e esperando na fila ou pagando 10 dólares para uma pipoca velha. Também roubo quando o filme é ruim e não vale isso ou quando não acho coisas antigas ou obscuras que quero assistir. Eu vivo pelo nosso código de piratas, e vou sempre apoiar os artistas nos quais eu acredito.

Um golpe de mestre:

Claro, algumas pessoas apenas roubam porque querem ou não conseguem pagar, mas um monte de gente está apenas esperando que o modelo oficial de distribuição seja tão bacana quanto é o BitTorrent.

E o grand finale:

Uma hora isso vai se resolver. A internet vai conectar produtores e audiência sem a necessidade de um atravessador. De alguma forma, algum dia.

Por ora, eu me declaro culpado. Então me prenda, porque sou um pirata, também.

Ops. Então tem dois aqui. Ou três, caro leitor?

Foto: Flickr/Peasap