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Direitos

Não sou um sujeito muito muito dado à religião. Vivo minha vida aqui mesmo no Planeta Terra, sem Deus ou alma, sem pecado ou sacerdote. Tem dias, confesso, em que olho para quem tem religião com alguma inveja. Inveja da sensação de paz que a certeza da imortalidade da alma traz. Inveja dos dados que vejo em pesquisas científicas: religiosos sofrem estatisticamente menos de depressão, são no geral mais satisfeitos com a vida, mais felizes. Mas não ter religião é parte do que sou, e uma parte que eu não pretendo mudar.

Tenho um baita respeito por gente religiosa. Respeito os católicos – como minha mãe, que foi aluna de escola de freira. Respeito os judeus – como meu pai, filho de poloneses que escaparam a tempo do Holocausto. (Quando me tiveram, os dois concordaram em não me dar religião, para não terem que brigar por minha alma e me darem a chance de escolher.)

E respeito os daimistas.

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O Santo Daime é uma religião mestiça e centenária, fruto do encontro de comunidades de trabalhadores cristãos pobres que emigraram para a Amazônia com índios amazônicos que consumiam um chá de propriedades enteógenas chamado ayahuasca. “Enteógeno” significa “aquele que provoca a manifestação interior do divino”. Para gente cética como eu, significa que o chá ativa a região do cérebro responsável por uma experiência mística. Em outras palavras: o chá faz ver Deus. O chá faz o cérebro funcionar da mesma maneira que, por exemplo, o cérebro de São Francisco de Assis funcionou no momento em que ele conversou com o Cristo na cruz.

Os daimistas acreditam que o chá liga-os com a essência divina da Terra e com os espíritos. Há quem não acredite nisso. Até aí, há quem não acredite que um sujeito possa ser crucificado e depois ressuscitar, ou que uma mulher possa conceber uma criança sem manter relações sexuais com um homem. Há quem não acredite que Deus escolheu um povo e que escreveu na pedra as leis para esse povo seguir.

Eu, que sou cético, pessoalmente não acredito em nenhuma dessas coisas.

Mas acredito no que está escrito na Declaração Universal dos Direitos do Homem: “todo homem tem o direito de liberdade de pensamento, de consciência e de religião”, incluindo o direito de mudar de religião e de “manifestar sua crença em ensinamentos, adoração e observação”. Acredito em Thomas Jefferson, um cristão, que disse que, uma vez que Deus dotou a mente humana de liberdade, qualquer tentativa de influenciar essa mente com punições ou proibições serve apenas para produzir hipocrisia e maldade.

E acredito que, se o Brasil proibisse a ingestão do chá do Santo Daime, estaria se colocando ao lado do Irã, da Arábia Saudita, do Paquistão, da China, do Vietnã e de outros países que impõem limites à liberdade religiosa. Permitir o Santo Daime dentro do contexto de uma religião é agir como age qualquer democracia civilizada – os EUA, por exemplo, tem leis semelhantes para regular o consumo do peyote, um cacto enteógeno adorado pelos índios do sudoeste do país.

Proibir o chá seria também criar mais um mercado ilegal que seria então dominado por traficantes. Óbvio: os daimistas convictos não parariam de consumir o chá e iriam para a ilegalidade. O que faríamos então? Mandaríamos tropas para a floresta, para prender índios? É isso que deveria ter acontecido com o Glauco? Ter sido preso como traficante? Não me parece que isso pudesse ter salvo sua vida.

Tornar substâncias ilegais não acaba com a violência. Pelo contrário: aumenta, como se pode constatar pelo imenso número de homicídios ligados ao tráfico que acontece todos os dias no Brasil. Em vez de proibir, deveríamos controlar. O chá do Santo Daime realmente é muito perigoso para pessoas com tendências a surtos psicóticos e histórico de esquizofrenia na família (assim como qualquer droga, incluindo o álcool). Que tal então se criássemos uma lei que obrigasse os daimistas a tirarem uma carteirinha e passarem por exames médicos periódicos para garantir que eles continuam saudáveis?

Algo parecido poderia ser feito com outras drogas. Vários estados americanos, por exemplo, têm feito experiências bem sucedidas com a maconha: qualquer um pode comprar desde que se cadastre e passe por um exame médico. Isso está matando a violência ligada ao tráfico e melhorando a saúde dos usuários. Da mesma forma, o Brasil tem feito avanços na forma como tem lidado com as duas drogas que mais matam gente no mundo: tabaco e álcool. Em vez de proibir, está se criando regras duras para evitar que outras pessoas sejam prejudicadas pelo consumo: batidas policiais para prender motoristas bêbados, proibição de se fumar em ambientes fechados. Assim respeita-se as liberdades individuais sem que terceiros saiam prejudicados. E não transformamos o Brasil no Irã.

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Engraçado como o tema do meu último post – homossexualidade – ainda incomoda. Os comentários me deixaram surpreso pela alta densidade de preconceitos: gays são histéricos, são nojentos, são exagerados.

Eu não deveria me surpreender. Estou cansado de saber que a sociedade brasileira, incluindo aí gente bem informada, ainda não aprendeu a tratar o assunto com naturalidade. Senti isso na pele quando publiquei uma reportagem de capa na revista Superinteressante, com uma constatação científica: a de que comportamento homossexual é parte da natureza, tanto quanto o sexo heterossexual. Recebi emails tão agressivos que perdi o sono. Um leitor picotou a revista e mandou-a pelo correio embrulhada em papel higiênico. Papel higiênico usado.

A capa polêmica, de 1999

A capa polêmica, de 1999

Domingo passado, a New York Times Magazine, revista que eu adoro, trouxe um artigo sensacional de Mark Gevisser, jornalista político sul-africano. Mark conta no texto como foi o seu casamento. Ele foi ao Escritório de Assuntos Internos de Edenvale, na África do Sul. Chegando lá, lhe perguntaram: “do mesmo sexo ou sexos opostos?” Chocado com a naturalidade da pergunta, ele levou algum tempo para responder: “do mesmo sexo”.

Mark não é histérico. Ele é um jornalista respeitado, autor de um ótimo livro sobre a democracia sul-africana e colaborador do melhor jornal do mundo. Ele não se casou para “copiar os heterossexuais”. Aliás, ele nem queria casar. Mas, como está de mudança para um emprego no exterior, a união civil o ajudaria com a burocracia.

O Escritório de Assuntos Internos, onde Mark se casou com seu marido, é o mesmo lugar onde, há não muito tempo, se fazia a classificação racial do apartheid. Eram eles que decidiam quem era branco, quem era negro e quem era mestiço – e essa decisão selava o destino da pessoa. No mesmo prédio que um dia foi sede da desigualdade, hoje se celebram os direitos iguais para todo mundo, branco ou negro ou gay ou hetero. A África do Sul, pátria da desigualdade, mudou desde o tempo do apartheid. E nos deixou para trás em termos de tolerância.

Não faz muito tempo, muitos brancos, no Brasil e na África do Sul, acreditavam sinceramente na sua superioridade sobre os negros e na justiça de terem mais direitos que eles. Hoje, felizmente, isso mudou. Pode ser que leve algum tempo, mas não tenho dúvidas de que chegará o dia em que as pessoas não acharão normal que heterossexuais tenham mais direitos civis que homossexuais.

Ah, Mark, que é branco, casou-se com um homem negro. (Já estou vendo a cara de nojo de alguns leitores…)