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Jornalismo

Uau!

Vocês não acreditam no programa que está passando agora na TV aqui nos EUA. É na Fox News, chama Glenn Beck Program, e está discutindo o projeto do Obama de seguro de saúde universal. Como se sabe, o sistema de saúde americano está nas mãos de seguros de saúde privados que são assustadoramente caros e que fazem o possível para não pagar quando o sujeito precisa. Além disso, rejeitam qualquer pessoa que não tenha uma saúde perfeita. Obama quer criar um sistema público ou pelo menos muito regulamentado, que cubra todo mundo.

Pois então. O tal Glenn Beck, que é um comentarista ultraconservador doido de pedra, está comparando isso com a política de Hitler de eutanásia forçada. Olha o raciocínio: o seguro de saúde vai ter que fazer escolhas sobre que tratamentos ele vai cobrir e quais não vai (afinal, os custos de saúde são imensos e os recursos são limitados). Logo, ele vai decidir quem merece viver e quem deve morrer. O nazismo voltou! Aí o sujeito começa a mostrar na TV imagens de bandeiras nazistas, pôsteres de propaganda defendendo a matança de velhos e crianças doentes (como este aí abaixo), cenas de campos de concentração. A uma certa altura, ele contorce o rosto e começa a chorar! E diz que, se dependesse do plano de Obama, a filha dele, que tem paralisia cerebral, não poderia viver! Agora ele está dizendo que – horror dos horrores – Obama mataria Ronald Reagan, porque ele tinha Alzheimer (Reagan é o herói dos conservadores daqui).

Sendo que a tal proposta é de criar um seguro de saúde quando hoje não há nenhum. Enfim, a ideia é dar seguro a quem não tem, não matar gente.

Minha nossa senhora, eu sabia que a Fox News apelava para espalhar medo pela população, mas eu não tinha ideia de que chegava a esse ponto.

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Este foi um dos cartazes mostrados agora na TV. Diz que este doente mental custará 60.000 marcos ao estado ao longo de sua vida. “Cidadãos! Este é o seu dinheiro.” Segundo a Fox News, é assim que Obama pensa.

Update: Arrá, agora ele descobriu o culpado! É o movimento verde! Sim, sim, meus caros, os ecologistas, os ambientalistas, esses mesmos safados que estão tentando acabar com a produção agrícola brasileira. Afinal, os ecologistas não dizem que há humanos demais no mundo? Pois então! Eutanásia forçada neles. Olha só o maluco aí embaixo numa foto que eu tirei da TV. Ele está mostrando um infográfico das ideias que influenciaram o programa de Obama. Algumas frases escritas na lousa: “comunista”, “abortos forçados”, “bebês não são humanos”.

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Passei os últimos dias num encontro de jornalistas na Universidade Stanford. Era uma reunião dos ex-bolsistas de um programa do qual eu participei no ano passado – tinha lá centenas de veteranos do programa, o mais velho está perto de completar 90 anos, eu era um dos mais novos. A sensação que eu tinha era a de estar numa convenção de escribas logo após a invenção de Guttenberg. A sensação de que minha profissão está morrendo. Meus colegas, principlamente os americanos, estão perdendo o emprego a rodo, vítimas da concorrência da internet. A ansiedade batia no teto. Ninguém sabe como será o futuro.

Esta foto aí acima é da excelente palestra do Leonard Downie Jr, vice-presidente honorário do Washington Post. Apesar da aparência jovem, Len Downie tem história. No começo da carreira, ele foi o editor da mais famosa série de reportagens da história americana, o escândalo do Watergate, que terminou com a renúncia do presidente Nixon. Downie não teve dó da audiência. Ele disse abertamente que talvez o jornalismo volte a ser aquilo que sempre foi ao longo da história, até os anos 60: uma profissão não muito bem paga, que as pessoas fazem mais por paixão do que por dinheiro durante a juventude, e que depois abandonam para fazer outras coisas. Mais uma paixão do que um negócio.

Mas nem tudo na palestra foi pessimismo. Downie está empolgadíssimo com as experimentações jornalísticas que estão acontecendo país afora: websites investigativos especializados, projetos apoiados por universidades, gente nova, talentosa, ética, inventando coisas e fazendo acontecer. Os jornais estão fechando, mas o jornalismo de qualidade não está acabando, pelo contrário. Tem muita gente boa fazendo coisas interessantes. E nunca se consumiu tantas notícias. O que está difícil é transformar isso em um grande negócio: tudo é pequeno, fragmentado, experimental.

São tempos aterrorizantes para a minha profissão. São também tempos fascinantes: de novidades, de inovação, de possibilidades. De gente jovem se reunindo para tomar o espaço dos gigantes. Muita gente está sofrendo, inclusive meus amigos americanos. Sempre há sofrimento quando há mudanças. Mas vai ser interessante ver no que isso vai dar.

Se pensarmos bem, a ideia de derrubar árvores para imprimir maços de folhas que são entregues nas casas das pessoas com notícias de economia mesmo que o sujeito só queira saber de futebol não faz mesmo muito sentido. A questão é: como arrumar um substituto para isso que não enfraqueça a democracia?

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Hoje fui ver o grande jornalista Gay Talese falar lá no prédio da Editora Abril.

“Um repórter tem que se vestir bem para ir a uma entrevista. Uma reportagem é uma ocasião importante, é como um festa, um casamento, um funeral.”

Sou espada, mas impressionante a elegância dele. Mais uma coisa em que ele ganhou de mim. Por enquanto está 11 X 1 para ele (fiz um ponto em pebolim).