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Política

Não é hora para emocionalismos, sejamos pragmáticos. Vamos olhar os números.

Uma castanheira-do-pará é uma árvore gigantesca, de 50 metros de altura, que pode viver mais de 1.000 anos. Todo ano, a castanheira dá frutos, que têm uma casca dura como a de um coco. Dentro da casca há até 24 castanhas-do-pará, um produto apreciadíssimo no mundo inteiro, rico em selênio e em ômega-3, portanto extremamente eficaz para combater ao mesmo tempo os dois grandes vilões da saúde contemporânea: câncer e doença cardíaca. Na média, uma castanheira não muito grande dá cerca de 30 frutos por ano, o que equivale a quase 500 castanhas. É o suficiente para produzir 1,5 litro de óleo de castanhas, o que rende uns 200 ou 300 reais para um pequeno produtor, por árvore (castanheiras realmente grandes e saudáveis chegam a produzir até 20 litros). Supondo que alguém tenha 30 castanheiras nas sua terras, são pelo menos uns R$ 6 mil por ano em óleo, talvez R$ 10 mil, por toda a eternidade até o tataraneto do tataraneto do tataraneto.

Mas os tempos são de prosperidade no Brasil e os chineses precisam de ferro para construir réplicas da Torre Eiffel. Há inúmeras mineradoras arrancando ferro de dentro da terra, de maneira agressiva. Em boa parte do país, esse ferro, assim que sai do chão, é queimado em fornos a carvão. Na Amazônia, portanto, há uma grande demanda por carvão.

O que acontece então é que os madeireiros procuram os pequenos proprietários da Amazônia e oferecem algo como R$ 150 por cada castanheira. Se o sujeito tiver 30 castanheiras, recebe cerca de R$ 5 mil. O madeireiro vai lá, derruba a castanheira, picota-a, queima, faz carvão, constrói fornos lá mesmo e produz ferro. O dono dos fornos ganha uns R$ 2  mil por forno por mês. Com algumas dezenas de fornos, ele é um homem rico.

Zé Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, os empresários e ambientalistas mortos na semana passada perto de Marabá, no Pará, sabem fazer conta, e por isso se recusavam a vender suas castanheiras (não só por isso, eles também amavam aquelas árvores, mas não é hora para emocionalismos). Eles mantiveram as árvores de pé e montaram uma pequena operação industrial para extrair o óleo na sua terra. O governo nunca lhes deu apoio nenhum. O Incra é imensamente burocrático e ineficaz. As estradas são terríveis. É por causa dessas dificuldades todas que muitos dos vizinhos venderam suas castanheiras para virar carvão.

Zé Claudio e sua maior castanheira, a Majestade. FOTO: FELIPE MILANEZ

Matar castanheiras é ilegal há séculos no Brasil, por causa do alto valor da castanha, mas isso não impediu que a espécie esteja hoje em extinção. Mesmo em Marabá, onde essas árvores magníficas surgiram, elas estão acabando. Zé Claudio e Maria denunciavam essas transações ilegais e a corrupção do estado. As denúncias os colocavam em conflito com os madeireiros, os donos de forno, os políticos, os funcionários corruptos e os traficantes de drogas (que, nesse mundo proibicionista, sempre estão metidos em tudo de ruim que acontece). Zé Claudio e Maria recebiam ameaças de morte há anos. Polícia, justiça, governo, ninguém fez nada para protegê-los.

Semana passada, eles foram assassinados.

Ainda sob o impacto das mortes, um deputado homenageou os empresários no Congresso Nacional. A turminha que estava lá para aprovar o novo Código Florestal vaiou, celebrando o assassinato.

A grande maioria dos agricultures e pecuaristas do Brasil é gente boa, que ama a terra onde vive, que não assassina ninguém e que entende que é melhor ter uma árvore viva que produz R$ 200 por ano e que dura 1.000 anos do que matar a árvore e vender a lenha por R$ 150. Mas os políticos que se dizem representantes dos agricultores e pecuaristas do Brasil – a auto-batizada “bancada ruralista” – tem uma alta proporção de picaretas. É gente oportunista, que se diz “desenvolvimentista” mas só está interessada em tirar o máximo possível antes que os nossos filhos tenham a chance de usufruir. Eles tentam fazer parecer que eles são os “pragmáticos”, atentos aos “números” e ao desenvolvimento do Brasil, enquanto os ambientalistas são “românticos” e avessos ao progresso. Mentira. Eles são usurpadores.

A lógica que matou Zé Claudio e Maria e que mata todos os dias árvores que já eram nascidas quando Cabral chegou ao Brasil é a mesma lógica que foi empregada no novo Código Florestal.

Com os assassinatos, a aprovação do acientífico Código Florestal, o pico de desmatamento na Amazônia em resposta à leniência do Congresso, a absoluta falta de preparação para os desastres climáticos que vêm aí, o governo Dilma já se configura como a pior tragédia ambiental no Brasil desde a ditadura militar.

Os números que forneço aqui, certamente imprecisos, foram calculados a partir de uma conversa com o repórter Felipe Milanez, especialista em Amazônia, que está no local apurando a história. Contribuições para melhorar a qualidade dos números são bem vindas.

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Quando o século 19 começou, não havia no Planeta Terra nenhuma democracia digna desse nome (naquela época, negros e mulheres eram proibidos de votar nos EUA). Em 1942, só 12 países do mundo eram democráticos, todos eles localizados na Europa ou na América do Norte. A Segunda Guerra Mundial estava no auge. Milhões de pessoas haviam sido mortas, em grande medida por causa da loucura de um punhado de ditadores. Foi aí que ganhou força um certo idealismo, uma convicção da superioridade da democracia e da necessidade de acabar com as tiranias.

De lá para cá, não dá para dizer que não tenhamos tido sucesso nessa missão. Há hoje no mundo cerca de 120 “democracias eleitorais” (aquelas que elegem seus líderes), o que dá 60% das nações da Terra, espalhadas por todos os continentes. O número de “países livres” – aqueles que, além de eleger seus presidentes, respeitam as liberdades básicas e possuem poderes independentes que se contrabalançam – já beira os 90, metade dos governos do mundo (mas bem menos que metade da população, já que a China desequilibra a balança).

O gráfico mostra a quantidade de países "livres" (verde), "parcialmente livres" (amarelo), e "não-livres" (vermelho), segundo os critérios da organização Freedom House

Esse número, que cresceu aceleradamente após o fim da Guerra Fria (quando ditaduras de esquerda e de direita proliferaram pelo mundo com o pretexto de que era o único modo de combater um “mal maior”), parece que está prestes a passar por mais um aumento dramático. Ajudado por ferramentas digitais, o povo foi às ruas na Tunísia e no Egito e derrubou velhos ditadores, e agora quase todas as ditaduras islâmicas estão balançando no pé. Ainda é cedo para saber se o que haverá no lugar dos ditadores será mesmo uma democracia, mas parece difícil acreditar que o povo, orgulhoso pelas vitórias, vá se contentar com muito menos que isso.

Isso é boa notícia, sem sombra de dúvida. Países democráticos são mais pacíficos, mais motivados, têm maiores índices de desenvolvimento humano, mais confiança entre as pessoas, economia mais dinâmica, mais possibilidades de realização pessoal, mais capacidade de inovar do que países autoritários. Apesar de serem aparentemente mais bagunçados, já que estão sujeitos à vontade do povão, a longo prazo eles são na realidade muito mais estáveis, porque têm regras claras, enquanto ditaduras quase sempre entram em crise à beira da sucessão. Ditaduras são caldeirões de frustrações e ressentimentos, cozidos a xenofobia.

Mas essa distinção entre democracia e ditadura esconde o fato de que há muitíssimos cinzas entre o branco e o negro. Há democracias de excelente qualidade, com três poderes independentes se fiscalizando mutuamente, muita transparência, muita responsabilidade, muitas oportunidades para participação cívica. E há outras mais capengas.

A brasileira, por exemplo, se não é das piores do mundo, está bem longe das melhores. Nossas instituições são fracas, o cidadão tem pouca voz, o judiciário é ineficaz, a polícia é corrupta e violenta, o legislativo é refém do executivo, os parlamentares se deram aumento de mais de 60% assim que passou a eleição e o deputado mais votado atende pela alcunha de Tiririca. Enfim, é uma democracia meia-boca.

Longe de mim querer desprezá-la. Ter uma democracia meia-boca é 1 milhão de vezes melhor do que não ter nenhuma – como não tínhamos há duas décadas e o Egito não tem ainda. Mas isso não significa que tenhamos que ficar satisfeitos com o pouquinho que temos – na realidade, a maior das vantagens da democracia é sua capacidade de melhorar, de incorporar contribuições da sociedade. No Egito, as novas tecnologias mudaram o espírito do país: aumentaram os anseios, os sonhos, as expectativas. Será que algo parecido está sendo gestado no Brasil?

Ontem, passeando pelas calçadas da cidade durante as eleições, notei que, em frente de cada posto de votação, a calçada estava coberta de pequenos quadradinhos de papel, cada um deles trazendo fotos, nomes e números de candidatos. Eram papéis pequenininhos, de menos de 10 centímetros cada um.

Aqui em São Paulo, estamos nos aproximando da época das grandes tempestades do final do ano. As próximas chuvas, que talvez caiam hoje mesmo, a julgar pelo cinza do céu que estou vendo agora, provavelmente vão empurrar os papeizinhos para os bueiros. O tamanho dos santinhos é ideal para que eles sejam facilmente arrastados pela água e para que se acumulem nas bocas de lobo, formando uma massa de papel machê. Nos próximos meses, quando as enchentes cíclicas da cidade chegarem, nossos bueiros estarão devidamente entupidos por santinhos de políticos.

Essa historinha é boba, quase óbvia, um detalhe desimportante que passa despercebido no meio das emoções eleitorais. Mas, quando pensamos nela com atenção, é difícil não ficar chocado. Nossos políticos – supostamente as pessoas que zelam pelo patrimônio público – estão sistematicamente colaborando para as enchentes das grandes cidades, que trazem prejuízos bilionários para o mesmo estado que eles querem administrar. Não é uma loucura?

É. E aí vem a questão: de quem é a culpa? Dos políticos? Sem dúvida: tudo culpa daqueles picaretas hipócritas corruptos bandidos usurpadores do patrimônio público. Eles são más pessoas, e por isso o sistema eleitoral é tão ruim. Apontar o dedo para os culpados dá uma sensação boa, um alívio. Mas é imensamente simplista.

Pergunto a você: o seu candidato espalhou papeizinhos com o nome dele pelo chão? Meu palpite é que provavelmente sim. Temos um sistema eleitoral que recompensa visibilidade. Nesse sistema, espalhar uma montanha de papeizinhos pelas ruas é incentivado: quanto mais papeizinhos você jogar no chão, mais gente vai ter a chance de ver o seu número e mais gente vai votar em você. Políticos que não imprimem papeizinhos tendem a não ser notados e não se elegem. Temos portanto um sistema que premia quem colabora com as enchentes e pune quem pensa na cidade. O nosso problema, portanto, não é das pessoas, é do sistema. Não é culpa dos políticos, eles estão apenas respondendo a incentivos para que se comportem mal.

Os papeizinhos na rua são apenas um entre tantos problemas sistêmicos da nossa política. Há outros muito mais sérios. Por exemplo: as eleições são decididas pelo tempo na TV e os critérios para distribuir esse tempo incentivam coligações esdrúxulas. Por isso, quase todo mundo faz coligações até com o diabo. Outro exemplo: candidatos “de protesto” tendem a ser bem votados e podem ajudar a eleger outros da mesma coligação. Isso faz com que quase toda coligação tenha algum personagem bizarro, como o Tiririca aqui em São Paulo, que parecia uma piada, mas na verdade era parte de uma estratégia bem séria.

Resolver problemas sistêmicos é difícil pacas – muito mais difícil do que achar culpados. Ainda mais na política. Como são os próprios políticos que fazem as leis, eles estão envolvidos no sistema: não têm interesse em mudá-lo. Por causa disso, estamos há décadas esperando a tal “reforma política” e ela nunca vem. Por que viria? Os grandes partidos estão confortáveis com o atual sistema e não têm interesse em mudá-lo.

Caberia à sociedade então encontrar soluções. Talvez o que o Brasil precise seja de um grupo multidisciplinar de representantes da sociedade independentes, vindos de vários setores diferentes, talvez até com a participação de um ou outro não-brasileiro que consiga olhar para o problema de um jeito fresco, novo. Esse grupo de pessoas entrevistaria políticos e eleitores, imaginaria modelos melhores, faria brainstormings e testes e, ao final, proporia um novo sistema – completo, buscando atacar cada probleminha e problemão, dos santinhos ao Tiririca, dos debates xoxos ao financiamento de campanha, buscando criar um sistema que torne a experiência de votar muito mais satisfatória. Aí, com o projeto pronto, o trabalho seria pressionar o Congresso a aprová-lo.

É assim que se conserta sistemas. Não é fácil. Mas temos quatro anos antes da próxima grande eleição. Que tal começarmos hoje (antes da chuva)?

No domingo, o Brasil vai às urnas escolher seus novos governantes. Não é uma eleição comum, por uma série de motivos:

1. É a primeira eleição presidencial de um Brasil classe média. Por séculos este aqui foi  um país enormemente desigual, dividido entre poucos com muito e muitos com pouco. Isso mudou, graças a uma série de motivos: a estabilidade conquistada com o real, as políticas distributivas dos últimos oito anos, a demanda chinesa por commodities, o aumento da produtividade por aqui. É claro que o país ainda tem uma cacetada de problemas enormes, mas, pela primeira vez em muito tempo, temos a chance de escolher um presidente num ambiente de prosperidade. Temos a chance de escolher uma visão de país, em vez de uma solução para a crise do momento. Poderíamos estar debatendo o que queremos para o futuro, em vez de simplesmente discutir os velhos ressentimentos entre ricos e pobres, entre direita e esquerda, seja lá o que isso queira dizer.

2. É a primeira eleição presidencial de um país conectado. Mais de 60% do Brasil têm acesso à internet, um meio horizontal de informação. Era nossa chance de fazer um debate participativo, com candidatos dispostos a ouvir ideias da sociedade em vez de simplesmente se portarem como sabe-tudo.

3. É a primeira eleição presidencial após o crash de 2008. E também a primeira após o consenso sobre a gravidade das mudanças climáticas. Era nossa chance de discutirmos oportunidades e riscos para o país. De propormos modos de posicionar o Brasil estrategicamente como uma economia verde, levando em conta a imensa riqueza de biodiversidade daqui, o imenso potencial produtor de energia limpa – e a imensa vulnerabilidade brasileira às mudanças climáticas.

Por tudo isso, vou às urnas no domingo com um gosto amargo na boca: a sensação de que estamos perdendo essas oportunidades. O debate, no geral, foi tão ressentido e pobre quanto sempre é. Os políticos são os mesmo de sempre e têm se comportado como sempre se comportaram: donos da verdade, paternalistas, sem disposição para debater com a sociedade. A internet foi cerceada pela Justiça Eleitoral, que proibiu publicidade online e fez o que pôde para preservar um modelo eleitoral caquético no qual o tempo de TV é distribuído de maneira a impossibilitar que ideias novas surjam e sejam debatidas. O governo abusou de seu poder e menosprezou a liberdade de imprensa. A oposição tradicional agiu com histeria e mal falou de propostas.

Ao longo dos últimos dois meses, tentei entrevistar Dilma e Serra sobre como a discussão sobre mudanças climáticas muda a forma de administrar o país. Nenhum dos dois respondeu às minhas seguidas solicitações. Estavam com a agenda lotada, me disseram seus assessores. Eu disse que estaria disponível a me adequar à agenda deles e dei um prazo de mais de um mês para que me encaixassem. Nenhum dos dois achou que o tema justificaria o esforço.

Por tudo isso, não me sobraram muitas dúvidas sobre como votar no domingo. Não dá para votar pela eternização no poder de um grupo político, ao custo do enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras. Não dá para votar numa oposição sem ideias, sem disposição para o debate. Não dá para votar em campanhas eleitorais criadas por marqueteiros, gente que não acredita em nada, apenas usa da ciência da persuasão para dizer ao eleitor aquilo que as pesquisas dizem que o eleitor quer ouvir. Não dá mais para eleger PT e PSDB enquanto eles estiverem coligados com partidos que não ousam dizer seus nomes.

Antes dava. E, justiça seja feita, tanto PSDB quanto PT entregaram o Brasil, ao fim de seus governos, melhor do que o receberam em muitos aspectos. Mas não dá mais. O mundo mudou e não dá para votar como se ele não tivesse mudado – como se as mudanças climáticas fossem lenda, como se o Brasil não tivesse potencial para produzir mais que commodities, como se a crise de 2008 não tivesse acontecido, como se a internet não existisse, como se o Brasil não precisasse de um novo modelo de educação, de um novo sistema político, de novas ideias. Não dá para não mudar.

E por isso resolvi declarar publicamente meu voto em Marina Silva. Não estou me filiando ao seu partido, nem me engajando em sua campanha – estou apenas declarando meu voto, sem prejuízo à minha independência jornalística. (Declaro também que fiz uma doação online de R$ 100 para sua campanha na semana passada, porque acredito que as pessoas físicas deveriam sustentar as campanhas, não os grandes lobistas.)

Voto em Marina mesmo sabendo que, mesmo que ela pudesse ganhar, dificilmente teria condições de governar no atual sistema político. Voto nela em repúdio às outras alternativas que me são oferecidas. Voto nela para afirmar que, em 2014, não quero ter que sentir de novo o gosto amargo de perder uma oportunidade.

Voto nela com satisfação. Espero que o seu voto, seja ele em quem for, também lhe dê satisfação.

A Crown Fountain, em Chicago, uma fonte lúdica-interativa-artística: exemplo de política pública que deixa as pessoas mais felizes. Foto: albany_tim (cc)

A ideia de que o papel do governo é deixar as pessoas felizes não é nova, claro. Qualquer um que seja versado em contos de fadas sabe que, desde o tempo do era uma vez, um bom rei é aquele cujo povo é feliz e próspero. Era assim na antiguidade, continuou a ser assim no estado moderno. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, logo no seu preâmbulo, avisa num texto quase tão familiar quanto o hino americano que “todo Homem foi criado igual, e foi dotado pelo seu Criador com certos Direitos inalienáveis, entre eles a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.

Note que o texto não menciona Dinheiro. Também não há referências a iPad. Mas o fato é que, tanto nos Estados Unidos quanto em todo o mundo moderno, os estados ultimamente têm se esforçado muito mais para deixar o povo próspero do que feliz.

Talvez seja em parte porque riqueza é bem mais fácil de medir do que felicidade. Felicidade é fugidia, e absolutamente sujeita a ser frustrada pelos caprichos humanos.

Um exemplo disso é um estudo clássico feito por três psicólogos americanos em 1978. Eles compararam os “níveis de satisfação com a vida” de três grupos de pessoas: “ganhadores na loteria” (que receberam prêmios entre 50.000 e 1 milhão de dólares), “vítimas de acidentes devastadores” (alguns deles tornados paralíticos) e um grupo-controle de gente comum escolhida ao acaso. Resultado: os ganhadores da loteria não se consideravam mais felizes que o grupo-controle. Quando perguntados  se esperavam um futuro melhor, as vítimas de acidente levaram vantagem. Os ganhadores na loteria se declararam menos capazes de tirar prazer de tarefas cotidianas.

Realmente, se você olhar a correlação entre riqueza e felicidade, não vai encontrar um retrato fácil de interpretar. Pegue o caso americano. Por lá, todos os indicadores financeiros melhoraram imensamente nos últimos anos. Desde os anos 1970, a renda americana subiu mais de 60%, o tamanho médio das casas cresceu quase 50% e todos os índices de consumo aumentaram. Enquanto isso, os níveis de felicidade permaneceram teimosamente inalterados (eles tinham crescido constantemente até os anos 1950). Nos últimos 30 e tantos anos, o mundo desenvolvido acumulou um monte de dinheiro, mas não tanta felicidade.

O fato é que, embora a felicidade seja realmente fugidia e difícil de medir, a ciência já sabe razoavelmente bem como encontrá-la. Vidas com sentido são mais felizes. Vidas ativas também. Espaços agradáveis de convívio aumentam a felicidade, espaços ruidosos sem trocas humanas diminuem. Tempo livre aumenta a felicidade, mas só quando ele é preenchido de uma maneira que traga sentido à vida, se não mais atrapalha que ajuda. E por aí vai.

Nas últimas décadas, esse tema foi lentamente ocupando espaço no debate político mundial. Primeiro foi um rei no Butão que inventou a ideia de Felicidade Interna Bruta (FIB), que nortearia os objetivos de seu governo mais do que o tradicional PIB. Até aí, era só uma iniciativa exótica de um governo autocrático em um país remoto. Mas, em 2007, o primeiro-ministro do Reino Unido nomeou um “czar da felicidade”, focado em alegrar os súditos da rainha. No ano seguinte, o presidente da França montou uma comissão liderada por dois Nobel de Economia (Amartya Sen e Joseph Stiglitz) para orientar o governo sobre como governar de maneira a deixar os franceses mais felizes.

Agora, na semana passada, um think tank finlandês chamado Demos, em parceria com os ambientalistas da WWF, lançou um manifesto batizado de “A Política da Felicidade”, propondo que os governos coloquem a busca pela felicidade no centro de sua agenda, no lugar onde até outro dia ficava a economia. Para mim, é o mais interessante documento já escrito sobre o tema (esta é a versão em inglês).

O Brasil não é a Finlândia, óbvio. Em países pobres como o nosso, felicidade aumenta sim quando a renda aumenta (garanto que ninguém é feliz com diarreia, fome ou malária). Mas o manifesto é bem interessante, inclusive para dar algumas ideias para os dois principais candidatos à presidência brasileira (quando olho para a cara do Serra ou da Dilma, certamente o que me vem à cabeça não é “essa pessoa quer me fazer feliz!”)

O texto parte de constatações científicas muito bem fundamentadas sobre a natureza da felicidade para fazer recomendações concretas de política pública. Por exemplo:

– criar um “fundo nacional de tempo”, que daria feriados às pessoas que doassem trabalho cívico (tanto feriados quanto trabalho cívico tendem a aumentar a realização pessoal).

– criar uma cultura de “design criativo” de espaços públicos. Prédios públicos têm que ser engraçados, surpreendentes, estimulantes e abertos para o uso de toda a população.

– gradualmente extinguir os exércitos e, no lugar deles, criar uma espécie de “acampamento cívico” aberto a todos os cidadãos.

– priorizar o trabalho coletivo na educação. Hoje, todo o sistema de educação é baseado no indivíduo e não incentiva nem ensina o trabalho coletivo, que aumenta os níveis de felicidade.

– proibir carros onde há crianças.

– aumentar impostos sobre espaço não utilizado. Criar incentivos financeiros para quem compartilha espaço.

Não é legal?

Wálter Maierovitch foi Secretário Nacional Antidrogas no segundo governo FHC, entre 1999 e 2000. Dois anos depois, entrevistei-o sobre a política brasileira para drogas, para um livro que eu estava escrevendo sobre maconha.

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Ele me contou que, durante seu período na secretaria, ele juntou esforços ao governo português para buscar para os dois países uma política de drogas mais liberal, que não criminalize o usuário, principalmente para drogas leves. O esforço foi em frente em Portugal, mas foi abruptamente interrompido aqui no Brasil. Por quê? Aparentemente porque, a uma determinada altura, o chefe de Maierovitch, FHC, barrou a mudança da lei. E por que FHC, que escolheu Maierovitch e parecia apoiar uma lei mais racional, mudou de ideia? Maierovitch não me respondeu diretamente, mas deu a entender que tinha certeza de que o presidente brasileiro tinha sofrido pressão do grandão do norte. Na opinião dele, o Brasil não descriminalizou o uso de drogas porque os Estados Unidos de Clinton não quiseram.

Não seria surpresa, claro. Faz quase 80 anos que a proibição internacional das drogas é uma bandeira dos Estados Unidos. No começo do século 20, surgiu nos EUA um forte movimento de inspiração religiosa puritana – as ligas de temperança –, que conseguiu proibir primeiro o álcool. Depois, quando o fracasso da proibição ao álcool ficou óbvio (custou uma fortuna e só serviu para enriquecer traficantes de bebidas e financiar o crime organizado), o movimento mudou seu alvo para as drogas hoje ilícitas, principalmente a maconha. De lá para cá, foram os EUA que carregaram a bandeira proibicionista na ONU e em todos os fóruns internacionais. Não sossegaram até que as drogas – que até os anos 1920 não eram ilegais em lugar nenhum do planeta – fossem proibidas em todos os países do mundo.

Mas parece que algo está mudando ao norte, embora seja uma mudança sutil. Sabe-se que Obama é contrário à criminalização do usuário, embora ele não fale muito sobre isso (veja este vídeo de 2004 no qual ele reconhece que a guerra contra as drogas foi um fracasso e afirma que precisamos repensar nossas leis e descriminalizar o uso). Até aí, nada de novo: Jimmy Carter, nos anos 70, já tinha dito praticamente o mesmo, mas só o que conseguiu quando foi presidente dos Estados Unidos foi mobilizar o país inteiro contra leis liberais e abrir caminho para que seu sucessor, Ronald Reagan, endurecesse ainda mais a repressão (o que só levou a gastos astronômicos e, veja você, um grande aumento no consumo de drogas pesadas e da violência associada a elas).

Este ano, dois países latino-americanos importantes – Argentina e México – descriminalizaram o uso de drogas, com leis ainda mais liberais do que a que o Brasil tentou instituir em 2000. Obama não se opôs. Não houve nenhuma gritaria americana. Pelo contrário. O que se vê, na imprensa americana, são elogios à coragem mexicana de finalmente enfrentar o problema que eles têm varrido para baixo do tapete há anos.

Na Califórnia, em 2010, haverá um plebiscito para legalizar a maconha – não apenas descriminalizar o uso, mas regulamentar a venda e cobrar impostos. O deputado Tom Ammiano, proponente da lei, disse que, “com o estado no meio de uma crise econômica histórica, regular e taxar a maconha é simplesmente bom senso.” Ele calcula que a Califórnia vai lucrar cerca de 1,4 bilhão de dólares em impostos. Esse argumento – de que proibir algo por questões morais, a custos elevadíssimos, é um desperdício em tempos de crise – é o mesmo que derrubou a proibição ao álcool após a Crise de 29.

A Organização Nacional para a Reforma das Leis de Maconha (Norml), uma associação americana que há 30 anos milita no tema, tem dito que nunca estivemos tão perto de uma legalização – nem mesmo nos anos 70 de Carter.

No fim de semana passado, FHC deu entrevista à Veja defendendo novas leis para drogas, em especial a descriminalização do uso de maconha. Desde o começo do ano, FHC tem falado abertamente sobre o assunto, o que está repercutindo bastante na imprensa americana e europeia. Dias depois da entrevista na Veja, Wálter Maierovitch escreveu em seu blog que Obama está prestes a descriminalizar o uso de maconha nos Estados Unidos (e aproveitou para dar uma espetada no ex-chefe FHC, que chamou de “oportunista” e “arrivista”, por abraçar hoje a causa que atrapalhou ontem).

Maierovitch não cita a fonte que lhe disse que Obama está prestes a agir (e não respondeu aos emails que mandei a ele). Mas ele é um sujeito bem informado. Há alguns anos, ele tinha certeza de que os Estados Unidos eram a força evitando que as leis antidrogas mudassem no mundo inteiro. Hoje, pelo jeito, ele pensa diferente. Se ele está certo, aguarde mais mudanças no horizonte.