arquivo

Arquivo mensal: janeiro 2011

Meu vizinho estava com muito calor neste verãozão pelo qual passamos. Ele resolveu então comprar um aparelho gigantesco de ar condicionado, desses que ocupam uma parede inteira. Instalou o trambolho de frente para a minha janela. O dia inteiro, agora, aqui na minha casa, fica aquele vrrrrruuuuu. Da minha janela, a vista é uma grelha de metal preto. 24 horas por dia a minha sala é preenchida pelo ar quente que o aparelho tira da casa do vizinho. Minha casa virou um inferno.

Pergunta: meu vizinho tem o direito de fazer isso?

A história é fictícia, graças a deus. Mas não tanto. Quando saio à rua, que também é minha casa, já que é sustentada com o dinheiro dos meus impostos, o que vejo é basicamente a mesma coisa.

As ruas estão tomadas de carros, que são caixas de metal sobre rodas. Para que as rodas deslizem melhor, a prefeitura da minha cidade (com o dinheiro dos meus impostos) arrancou toda a vegetação e despejou por cima da terra um pixe grosso e negro.

Óbvio que, neste sol tropical daqui, não é muito agradável ficar dentro de uma caixa de metal sobre pixe endurecido, na barulheira do motor. Para aliviar esses problemas, há uma porção de soluções tecnológicas: ar condicionado, portas e janelas vedadas, vidros escurecidos, sistema de som. Com isso, o ambiente dentro da caixa de metal fica agradável, fresco e silencioso. Mas na rua aqui fora (minha casa, mantida com o dinheiro dos meus impostos), o inferno reina. O barulho, a fumaça e o calor ficam para fora, comigo.

Estamos acostumados com isso. Cidades são dominadas por carros em todo lugar e sempre foi assim, portanto não cabe questionar. Certo?

Errado.

Nem sempre foi assim: na verdade essa é uma onda muito recente, começada nos anos 1960. Também começou nos anos 1960 um aumento mundial da criminalidade nas ruas, das doenças respiratórias, das mortes violentas, do consumo de drogas como o crack e de outros sintomas da morte dos espaços públicos. Será que é coincidência? Eu acho que é consequência direta da infeliz escolha de fazer espaços para os carros.

E não é em todo lugar que isso acontece. Há pelo mundo um bom número de cidades que resistiu ao domínio dos carros e criou espaços públicos que priorizam as pessoas: Copenhague, Amsterdam, Paris, São Francisco, Melbourne são algumas delas.

Leio aqui no jornal de hoje que o prefeito de São Paulo está com um mega plano para aumentar a velocidade do trânsito da cidade. Aviso desde já: eu me recuso a seguir este plano. Vou desobedecê-lo, civicamente. Não reconheço um sistema que, embora pago com o meu dinheiro, não me consulta e não me leva em conta.

A cidade é minha, mano. Tenho direito de viver bem nela.

PS: a propósito: minha colega Natália Garcia, que trabalhou comigo na criação do site !sso Não É Normal, está com um projeto de passar um ano viajando por 12 cidades do mundo construídas para as pessoas – um mês em cada uma. A ideia é montar um grande banco de conhecimento sobre soluções urbanas. O projeto será financiado coletivamente, através de doações feitas neste site aqui. Se você se importa com isso, doe. Cada vez mais tenho a convicção de que só assim se vai mudar a lógica das coisas. A prefeitura não dá a mínima para os paulistanos. A universidade – igualmente financiada com a minha grana – não oferece alternativa nenhuma porque é refém da mesma lógica (a USP tem muito mais área dedicada a estacionamentos do que a laboratórios). Resta financiarmos a nós mesmos para conseguirmos o que queremos.

Anúncios

Rios são veias. As artérias são correntes de ar, que carregam a água evaporada do mar até o continente e despejam tudo lá de cima. Cabe aos rios apanhar essa aguaceira e carregá-la de volta ao mar.

Boas veias são elásticas. Quando aumenta a pressão do sangue, elas relaxam, aumentando o espaço e permitindo um fluxo maior. Quando as veias enrijecem, perdem a capacidade de acomodar o excesso de pressão. Vasos sanguíneos rígidos são indício de morte iminente.

Mais ou menos a mesma regra vale para os rios. Bons rios são cercados por uma extensa área florestada, que alaga quando o fluxo aumenta, reduzindo a velocidade da água e alimentando um ecossistema bem rico. É o que se chama de várzea. O Brasil foi premiado pela natureza por rios de imenso volume d’água e, como consequência, algumas das maiores várzeas do mundo. Isso é a razão de nossa proverbial fertilidade e explica nossa aptidão para produzir comida, a base da nossa atual prosperidade.

Acontece que há um imenso equívoco no modo de ocupação do solo brasileiro. Construímos nossas casas nas várzeas e nas encostas íngremes.

A cidade de Palmares-PE, à beira do Rio Una, que a destruiu

Esse erro é cometido mais ou menos do mesmo jeito no país todo, o que explica por que regiões tão diversas como Santa Catarina, Alagoas e Pará tenham problemas semelhantes. Várzea ocupada é aquilo que os noticiários chamam de enchente. Encosta ocupada é mais conhecida como deslizamento. A questão central agora é desocupar essas regiões para que, no ano que vem, quando chover de novo, não haja ninguém mais morando lá.

E onde botamos as pessoas que vivem em várzeas e encostas? Para responder a essa pergunta, é importante antes entender por que essas regiões foram ocupadas. A resposta é complexa, mas pode ser simplificada em duas palavras: especulação imobiliária.

No Brasil, país de economia historicamente instável, sempre foi ótimo negócio ser dono de terra e ficar lá sentado nela sem fazer nada. O modelo de urbanização do país, que concentrava a economia no centro da cidade e ia se expandindo para fora garantia a certeza de que um terreno distante ontem viraria centro amanhã e seu valor se multiplicaria. Por conta disso, há na região central das maiores cidades brasileiras uma quantidade imensa de terrenos vazios ou subutilizados, só esperando valorização. Isso faz os preços de imóveis dispararem e os trabalhadores demandados pelas cidades acabam indo se espremer em várzeas e encostas, únicas terras baratas.

Isso é um problema para as cidades, porque força os trabalhadores a atravessar dezenas de quilômetros de asfalto para chegar ao trabalho, no centro. Por isso nosso trânsito é uma caca. Mas mora aí nossa grande oportunidade.

O que o Brasil precisa fazer agora é tirar as pessoas das encostas e várzeas e colocá-las nesses pedaços vazios do centro da cidade (a última coisa que queremos é colocar as pessoas ainda mais longe, aumentando ainda mais o trânsito e os custos do transporte público). Isso trará várias vantagens. Permitirá às cidades fazerem grandes parques lineares em volta dos rios, onde hoje há avenidas, com instalações esportivas e ciclovias. Levará trabalhadores para as regiões centrais, diminuindo a pressão no transporte público e no trânsito. Embelezará as cidades, criará oportunidades econômicas, moverá a economia e fará o Brasil rodar.

Mas como fazer os especuladores colaborarem? (Já que a solução depende de eles pararem de especular.) O remédio tem três doses: educação, fiscalização e punição. Primeiro ensina-se os proprietários a adaptarem sua situação para que os terrenos vazios parem de prejudicar a cidade e sejam ocupados. Dá-se a eles um prazo para se adaptar – e prazos curtos funcionam muito melhor do que prazos longos. Quem não se adapta, paga impostos cada vez mais altos ou é desapropriado.

Precisamos começar a fazer isso rápido, assim que as chuvas pararem. Mas o planejamento precisa ser de longuíssimo prazo, coisa de 30 anos, para que as obras de 2011 não sejam apenas a maquiagem de sempre (piscinões, muros, dragas e aumentos de calha), mas o primeiro passo de uma reforma profunda no sistema de ocupação do Brasil.

Foto: Cia de Foto / !sso Não É Normal

Um exemplo de como é hoje: o mapa mostra os empregos formais na indústria, comércio e serviços em São Paulo, fortemente concentrados no centro

Já este mapa mostra o crescimento populacional na cidade: todo ele nas periferias

As chuvas deste ano foram excessivas, muito acima da média, e pegaram nossos governantes – federal, estaduais, municipais – de surpresa.

Mas espera… Não contaram exatamente essa mesma história no ano passado, quando um bairro de São Paulo virou um lago por bíblicos 40 dias, Angra dos Reis desmanchou-se como sorvete derretido e dois rios encheram tanto e tão rápido que fizeram pernambucanos e alagoanos compararem-nos a um tsunami?

O hospital de Palmares, Pernambuco, que visitamos um mês após a enchente de 2010.

Aliás, essa “surpresa” não tem acontecido praticamente todo ano?

Vamos por partes. Primeiro: não é surpresa. Faz pelo menos uma década que se sabe que, com o avanço das mudanças climáticas globais, aumentará imensamente a ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil. A quantidade total de precipitação não aumentará muito, mas ficará mais concentrada, com mais água caindo em menos tempo. É exatamente o que está acontecendo: na semana passada já tinha caído no país toda a água esperada para janeiro.

Também não há sombra de dúvida de que as mudanças climáticas causadas pelo aumento da concentração de gases estufa na atmosfera é uma realidade que já está nos afetando. As previsões que os cientistas fizeram só não estão se confirmando porque estão sendo superadas (cientistas tendem a ser conservadores em suas estimativas). 2010 foi o ano mais quente e o mais chuvoso da história. Nove dos dez anos mais quentes da história aconteceram de 2000 para cá. Os gastos da defesa civil brasileira com tragédias subiu mais de 1000% em cinco anos.

Ou seja, se os governantes ficaram surpresos é porque não estavam prestando atenção – talvez estivessem ocupados demais discutindo a proibição do aborto para mulheres vítimas de estupro ou outra sandice dessas.

Mas colocar a culpa nos governantes é fácil. Façamos justiça: a sociedade toda está que parece anestesiada. Ninguém se mexe. Mesmo a imprensa morre de medo de dizer com todas as letras que a mudança no clima está por trás disso tudo. Uma tragédia depois da outra e ninguém se toca que tem algo bizarro acontecendo.

Continuamos bovinamente aceitando disparates, como a obra paulistana que, em meio aos indícios de que precisamos de um solo mais permeável, asfaltou uma faixa a mais de avenida na beiradinha do Rio Tietê. “Ah, vai melhorar o trânsito.” Trânsito de rabecões?

Tem gente que até apóia o projeto horripilante do deputado Aldo Rabelo de mudança no Código Florestal, que vai anistiar ocupações ilegais e permitir ocupação mais perto dos rios e em encostas mais íngremes, aumentando o assoreamento que faz os rios saírem de seus leitos.

Enfim, estamos fingindo que não é conosco. Estamos fazendo igualzinho aos governantes – em vez de trabalhar, torcemos para no ano que vem não chover tanto, apesar dos indícios de que vai chover mais.

As mudanças climáticas estão acontecendo e vão piorar. É um fato, precisamos lidar com ele.

Mas isso não precisa ser o apocalipse. É possível enfrentar as inevitáveis mudanças sem tantas mortes e prejuízos. A receita é simples (o que não quer dizer que seja fácil): tire as pessoas das encostas e das beiras dos rios, tire muito do asfalto para o solo absorver água, refloreste intensamente. Já é tarde demais para os mais de 700 brasileiros que morreram nas chuvas de janeiro. Quantos mais antes de fazermos alguma coisa?

Foto: ® Cia de Foto / !sso Não É Normal

Fundamental para melhorar é aprender com os erros. Para aprender, é importante estar atento ao que acontece no mundo lá fora, em vez de viver aferrado a suas crenças de infância.

Peguemos, por exemplo, o caso de dois compostos vegetais bem diferentes mas com muito em comum: ambos são divertidos, sociais, fazem mal à saúde, fazem bem à saúde, têm uma gigantesca cultura ao redor de si, acompanham a humanidade desde a antiguidade, inspiram ideias religiosas e artísticas e fazem girar uma imensa economia. Ambos têm um tremendo efeito no corpo humano, com óbvio papel farmacêutico. Ambos são produzidos num processo delicado e cheio de sutilezas, no qual cada detalhe do cultivo faz diferença na qualidade do produto final. Um é o suco fermentado de uma fruta, o outro é um composto químico presente em uma flor. Vinho e maconha.

Até 1920, nenhum dos dois era proibido. Ambos eram facilmente encontrados em armazéns e vendinhas. Os dois tinham papeis parecidos em partes diferentes do mundo. O primeiro a ser seriamente proibido foi o vinho, nos Estados Unidos, em 1920.

A proibição do álcool no país foi consequência de um movimento de fundo religioso chamado “temperança”. Deu imensamente errado. Em muito pouco tempo, os vendedores clandestinos de álcool começaram a fazer pagamentos mensais para a polícia, a justiça e a política para operar em paz. A corrupção afetou a moral do estado e diminuiu sua capacidade de governar. Como funcionava na sombra da lei, os vendedores de bebidas logo começaram a se armar e iniciaram guerras por território. Surgiu um violento crime organizado. A qualidade das bebidas despencou, já que os produtores eram gângsters, não someliers.

Quando a Proibição do álcool acabou, após a constatação de que era cara e ineficaz, deixou uma burocracia desempregada, e essa burocracia lobiou por algo para proibir. Não demorou para eles acharem: uma erva demoníaca que enlouquecia as pessoas e fazia-as matarem os outros (esse foi um dos mitos sobre a maconha depois desmentidos).

A proibição da maconha deu tão errado quanto a do álcool. Não conseguiu reduzir o consumo (pelo contrário, ele disparou), corrompeu a Justiça, o governo e a polícia, aumentou os problemas de saúde associados à droga. Gerou um comércio cada vez mais dominado por gente violenta. Mas o pior é que os produtores e comerciantes de maconha logo começaram a procurar substâncias mais lucrativas. E um jeito de aumentar os lucros é aumentar a potência (diminuindo o custo de armazenamento e transporte e o risco de ser pego) e a taxa de dependência (fregueses viciados são ótimos para os negócios).

Não demorou para as organizações que lucram com maconha começarem a vender cocaína e heroína (da mesma forma que os vendedores de álcool ilegal dos anos 1920 foram aos pouco trocando cerveja e vinho por um rum de fundo de quintal de péssima qualidade). Hoje, grupos criminosos brasileiros fazem venda casada de maconha com crack: se você comprar maconha precisa levar também um tantinho de crack.

Hoje o vinho é um dos produtos rurais mais lucrativos do mundo, o que reduz o êxodo rural e gera uma economia fortemente artesanal que emprega muita gente. Preza-se qualidade. Enquanto isso, a maconha está na mão de bandidos, que não sabem nada de qualidade, apenas se importam em não ser pegos, maximizar lucros e disputar territórios a tiros. A indústria não dá um centavo para o estado, apenas consome recursos.

Maconha e vinho não são iguais: são compostos diferentes, com efeitos diferentes. A maconha definitivamente não faz tão bem quanto o vinho, que possui substâncias que reduzem imensamente as chances de morrer do coração. Também não faz tão mal quanto o vinho, porque causa menos dependência que o álcool, não causa lesões cerebrais permanentes nem provoca comportamento violento ou completamente irresponsável, como o álcool.

Mas será que, ao proibirmos um e vigiarmos atentamente o outro, não estamos potencializando o mal do primeiro e o bem do segundo?

A propósito: maconha adora muito sol e pouca chuva. O sertão nordestino, pedaço mais socialmente vulnerável do Brasil, poderia ser a Bordeaux dessa cultura.

Primeira coluna do ano, que beleza.

Ótima chance de fazer um texto para cima, otimista, legalzão, dizendo como o mundo é lindo e como tudo vai ficar bem se cada um de nós abraçar uma árvore. Até vim viajar, para deixar meu espírito mais leve e facilitar a positividade do texto.

Fui para o Recife. Fui para Olinda. Agora estou aqui em Lençóis, na Chapada Diamantina, na Bahia. Três cidades tão lindas. Sabe o que vi em todas as três?

Crack.

Aliás, faz muito tempo que vejo crack em toda parte. Na minha cidade, o crack conquistou um território, a famosa Cracolândia, onde o cheiro de bosta está no ar e se cruza em toda parte com meninos novinhos com cara de zumbi. No Recife, o Recife Antigo, área a muito custo restaurada pela prefeitura, vai aos poucos mergulhando de volta na decadência. As esquinas se enchem de gente fedida, a arquitetura cai aos pedaços, as ruas são tomadas por garotos de olhar vazio.

Degradação: vista comum no centro de qualquer grande cidade brasileira

Diz a teoria básica 1.0 da proibição que, quando algo é proibido, a tendência é que surjam versões cada vez mais potentes e destrutivas desse algo. Para que ficar meia hora exalando o cheiro forte de maconha se eu posso discretamente fumar crack em um segundo e ficar muito mais doido? (Há registros de que, durante a proibição do álcool nos EUA, nos anos 1920, surgiram bebidas tão fortes que matavam de overdose.)

Crack é a droga mais barata do Brasil – por 5 reais se foge facilmente da realidade. É também a que vicia mais rápido (às vezes no primeiro uso), a que causa dano cerebral permanente mais rápido (dificilmente um usuário de crack por mais de um ano tem a capacidade cognitiva intacta), a que mata mais rápido (após dois anos, ou o usuário para ou morre, do próprio uso ou assassinado pelas bobagens que comete).

Mas para que se preocupar? O Brasil proibiu as drogas, não é? Já fizemos o que podíamos, melhor não discutir mais o assunto. Vamos falar de outra coisa?

Hmmm, me contam aqui que 98% das cidades brasileiras estão tendo problemas com crack. Não apenas as pessoas estão se ferrando, mas o espaço público vai para o beleléu, os índices de criminalidade disparam, uma geração é desperdiçada. Será que ninguém percebe que esse problema seriíssimo está diretamente ligado à nossa política de drogas burra, que proíbe tudo sem fazer distinção entre drogas relativamente inofensivas e venenos mortais? Uma política de drogas que persegue apenas o pequeno varejista (como o das favelas do Rio), deixando livres os chefões: os importadores, exportadores, políticos, juízes, delegados que realmente mandam no tráfico. Esse pessoal é gente de bem, usa gravata, não dá para por na cadeia.

Até quando entregaremos nossa política de drogas para os medíocres, os hipócritas e os ignorantes? Até os zumbis comerem nosso cérebro?

Ah, esqueci… Bom 2011!