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Arquivo mensal: julho 2011

“O que este blog está fazendo na Veja?”

Desde que comecei o Sustentável é Pouco, este comentário foi feito dezenas de vezes aqui. Tenho por hábito sempre responder às coisas que me são perguntadas na área de comentários, mas essa eu nunca respondi. Achei que valia a pena usar a coluna de hoje para corrigir essa descortesia.

Acredito que tem uma mudança descomunal começando a acontecer no mundo. De tempos em tempos, mudanças assim acontecem, talvez você se lembre de algumas delas das aulas de história do primeiro grau – a queda de Roma, o iluminismo, a revolução industrial. Viver num tempo de mudança profunda é um privilégio. Significa que a nós, entre todas as dezenas de bilhões de humanos que já existiram no mundo, foi dada a honra de participar da construção de uma nova ordem mundial, um novo jeito de pensar.

Mas, além de privilégio, é uma desgraça. Dizem que os antigos chineses, quando queriam amaldiçoar alguém, diziam: “Que você viva tempos interessantes”. “Tempos interessantes” são meio que o oposto de “tempos tranquilos”. São períodos turbulentos, de incerteza e estresse, em que ninguém se entende.

Nós nascemos no meio de uma ordem mundial, que era baseada em um certo sistema de alianças. “Eu sou de esquerda” e “eu sou de direita” são, por exemplo, duas dessas identidades típicas da ordem antiga. Não quero dizer aqui que esquerda e direita não existam ou que não sejam importantes. Não quero tampouco negar o legado de tanta gente incrível do passado que dedicou a vida a essas alianças. O que eu quero dizer é que, quando o mundo inteiro muda, essas divisões deixam de fazer sentido. Aí, é muito mais importante que a gente consiga – todos nós – sentar e conversar e mudar o jeito de fazer as coisas.

Pegue o caso do Código Florestal, por exemplo. O Brasil foi incapaz de melhorá-lo – e esta coluna assume sua cota de responsabilidade por essa incapacidade. O resultado disso é que fizemos uma lei esdrúxula e estúpida, que certamente vai causar mortes e destruição, e que não interessa a ninguém. Certamente não interessa aos produtores rurais, que não ganham nada com assoreamento dos rios e deslizamentos. Mas estamos tão presos na lógica antiga (ambientalistas são inimigos de ruralistas) que não conseguimos conversar a tempo de evitar a desgraça.

Precisamos aprender a conversar, e esta coluna, ao longo dos últimos dois anos e meio, foi basicamente isso: um espaço para conversa. Um espaço onde pessoas que pensam imensamente diferente umas das outras se dispõem a prestar atenção por um momento no que o outro está dizendo. E, se é verdade que mais de uma horda de trolls já passou por aqui, queimando casas e berrando de fúria, é verdade também que houve alguns momentos memoráveis de gente chegando a um acordo. Houve uma quantidade razoável de comentarista mudando de opinião ao longo da discussão, não porque foi convencido, mas porque aprendeu a levar em conta a opinião do outro em sua visão de mundo.

Foi uma honra coordenar este espaço aqui.

Estou me despedindo desta coluna. A Veja está reformulando o site e mudando a lógica de seu conteúdo editorial. E, se está mudando, torço a favor: é de mudanças que este mundo precisa. Agradeço à Veja, por ter me dado plena liberdade enquanto estive aqui.

Para mim, pessoalmente, o fim da coluna vem em boa hora. Estou obcecado pelo tema da minha pesquisa: maconha e o futuro da política de drogas. Agora preciso de 100% de foco, para escrever um livro, que lanço ainda antes do final do ano. Estava mesmo difícil dar atenção a outra coisa.

Valeu por tudo, desculpa qualquer coisa.

Até a próxima.

Denis

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O neurocientista Sidarta Ribeiro classificou o que está acontecendo mundo afora em relação à maconha como uma “rebelião instaurada”. Não são os políticos que estão mudando o status da maconha no planeta: são as pessoas, saindo às ruas ou levando a briga às instâncias mais altas dos tribunais. Nos Estados Unidos, doentes crônicos cujo sofrimento poderia ser aliviado com maconha já conseguiram legalizar o uso medicinal em 16 estados e no distrito federal. Na Espanha, uma briga no supremo levou a polícia a pedir desculpas e devolver erva apreendida a um coletivo de usuários, e garantiu o direito de grupos de pessoas sem fins lucrativos de plantar sua própria cannabis em grande escala, mesmo que para fim recreativos. Aqui no Brasil, esse grupo oprimido há décadas comemorou há pouco o reconhecimento do Supremo de que, numa democracia, não se pode proibir a expressão de ideias contrárias à proibição.

Na Califórnia, esta latinha, comprada por 18 dólares, é considerada remédio

Sidarta é respeitado no mundo todo por suas pesquisas sobre sonho pela Universidade Duke, dos EUA, e hoje é chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, o ambicioso centro de pesquisas criado do Rio Grande do Norte para ser referência mundial nos estudos do cérebro. Ele diz que a pesquisa sobre endocanabinóides, as substâncias naturais do cérebro que têm o mesmo efeito da maconha, vive uma era de ouro.

Essa área praticamente não existia há uma década e meia, em parte porque a proibição tornava a pesquisa praticamente impossível. Hoje está ficando claro que os endocanabinóides provavelmente guardam as respostas para vários dos maiores mistérios da biologia humana. Câncer, doenças auto-imunes, estresse pós-traumático, dor crônica, distúrbios do apetite, doenças degenerativas do cérebro como Alzheimer e Parkinson, esquizofrenia: quase tudo que a medicina compreende mal tem alguma ligação com o tal sistema endocanabinóide. Nossa sociedade criou um tabu com uma substância e, por causa desse tabu, uma área inteira da medicina deixou de se desenvolver.

Sidarta adoraria pesquisar endonabinóides. Com o talento dele para pesquisa e um tema quente como esse, podia dar Nobel. Mas isso não vai acontecer. Aqui no Brasil, ele não consegue importar as substâncias químicas necessárias para esse tipo de pesquisa. Sem pesquisa, o potencial medicinal fica inexplorado e os riscos da droga aumentam.

Esse é só um entre os muitos efeitos indesejados da proibição. Além disso, a sociedade toda paga o custo de ficar permanentemente enxugando gelo. A proibição enriquece bandidos, piora a qualidade da droga, causa problemas de saúde, superlota as cadeias, corrompe a justiça, impede a polícia de trabalhar na prevenção de crimes sérios, espalha a violência. Não estou dizendo aqui que a maconha não faça mal. Faz. Mas a proibição amplifica esse mal e causa muitos outros.

É impossível diminuir sensivelmente o uso de maconha com repressão, como mostrou a ótima análise econômica feita no livro Drugs and Drug Policy, escrito de forma desapaixonada e racional por três especialistas em política pública. Eles mostram que a grande maioria das transações com maconha é feita por redes sociais, não por traficantes desconhecidos. A polícia jamais vai conseguir impedir que amigos dêem coisas para amigos. Nem se houver câmeras em cada quarto do mundo. É por isso que a proibição dá tão errado.

São essas redes informais que, ajudadas pela internet, estão começando a se rebelar contra o status quo. Elas contam com apoios de peso, em especial ex-governantes do mundo todo, que sabem que a proibição, embora seja boa para manipular medos e ganhar votos, torna a vida real de administrar o país um pesadelo.

Tudo indica que é só o começo. Sidarta está otimista. “Acho que a proibição vai cair mais rápido do que se pensa. Quando desabar, vai ser que nem o Muro de Berlim. Quem sabe começa por aqui.”

O médico Gabor Maté nasceu em 1944 na Hungria ocupada pelos nazistas. Quando era bebê, ele vivia com a mãe num casebre no gueto judaico de Budapeste. O pai estava preso, condenado pelos nazistas a trabalhos forçados. Os avós, pais de sua mãe, seriam deportados para Auschwitz e assassinados. Um dia a mãe levou Gabor ao pediatra, porque o bebê chorava o tempo todo. O pediatra disse a ela que todos os pacientes judeus dele estavam chorando o dia todo.

Os sapatos do monumento de Budapeste simbolizam as pessoas que foram executadas pelos nazistas na margem do Danúbio

Obviamente, Gabor não entendia de nazismo e nem sabia o que acontecia num campo de concentração – ele era um bebê. Mas o estresse da mãe, órfã e lutando sozinha para manter uma criança viva, entrava em seu organismo. Hoje ele sabe que crescer naquele ambiente brutal e desestruturado foi determinante para a sua formação emocional. Como ele não pôde receber amor e cuidado suficientes na primeira infância, Gabor tem permanentemente uma sensação de vazio na alma – uma incompletude, uma carência constante e eterna. Por causa disso, ele tem uma tendência a comportamentos compulsivos. Gabor é viciado em compras. De tempos em tempos, quando a dor aumenta, ele entra numa loja e compra mais do que seria razoável.

Ter vivido isso ajudou Gabor a compreender os mecanismos da dependência. Ele é o autor do livro In the Realm of Hungry Ghosts (“No reino dos fantasmas famintos”) no qual ele revela que, como regra, pessoas dependentes são vítimas de infâncias desestruturadas, como a dele. Os tais “fantasmas famintos” são seres como ele próprio: eternamente carentes de algo. Gabor preenche esse vazio com compras. Outros o preenchem com comida, com sexo, com jogo, ou com drogas. Dependentes severos de crack, cocaína, heroína e maconha são pessoas assim.

“Pessoas com dependências severas foram na maior parte crianças que sofreram abuso”, disse Gabor numa entrevista recente. “Portanto, a guerra contra as drogas é uma guerra contra pessoas que foram abusadas desde que nasceram. Estamos punindo pessoas por terem sido abusadas.”

Essas pessoas têm plenas condições de se desenvolverem bem, de maneira saudável, e de se tornarem adultos bem sucedidos, como aliás aconteceu com o próprio Gabor. Mas, para que isso possa acontecer, elas precisam ser cuidadas. “Fantasmas famintos” são os indivíduos mais frágeis da humanidade, os mais vulneráveis. Eles só têm chances de se desenvolverem se receberem cuidados. E o que estamos fazendo? “Criamos um sistema que repudia, marginaliza, empobrece e adoece os dependentes.” Enfim, nossa sociedade pega os mais vulneráveis e enche-os de cacetadas. Se isso não é covardia, não sei o que é covardia.

Já ouço alguém bradar “o dinheiro dos meus impostos não é para cuidar de vagabundo viciado”. Mas caracas. O nosso sistema atual é muitíssimo mais caro. Manter alguém na cadeia custa dezenas de milhares de reais por ano, enquanto oferecer tratamento custa um preço bem razoável e dá muito mais resultado.

Portugal teve o bom senso de tirar esse assunto da mão de políticos covardes, que se aproveitam da impopularidade dos drogados para incitar o linchamento público e perpetuar a falida guerra contra as drogas. O país montou uma comissão de especialistas, tirou o sistema criminal da jogada e chamou gente com talento para cuidar dos outros para gerenciar o sistema. Surpresa: os dependentes estão conseguindo se curar e estão largando as drogas. Largam porque querem, porque têm força para isso, não porque algum troglodita com cacetete na mão mandou largar.

Aqui no Brasil, nosso sistema se baseia em colocar pequenos traficantes na cadeia. Muitos desses pequenos traficantes na verdade são mães, irmãs e namoradas de dependentes e traficantes, que levam droga para a cadeia ou fazem trabalho de mula para ajudar no orçamento doméstico. Elas são presas e deixam legiões de crianças crescerem sem mãe. Será que essas crianças vão crescer bem?

Nosso atual sistema, assim como aquele sob o qual Gabor nasceu, é uma fábrica de fantasmas famintos. E depois as pessoas acham estranho que, como consequência da guerra contra as drogas, o números de dependentes de drogas no mundo esteja crescendo.