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Arquivo mensal: setembro 2010

No domingo, o Brasil vai às urnas escolher seus novos governantes. Não é uma eleição comum, por uma série de motivos:

1. É a primeira eleição presidencial de um Brasil classe média. Por séculos este aqui foi  um país enormemente desigual, dividido entre poucos com muito e muitos com pouco. Isso mudou, graças a uma série de motivos: a estabilidade conquistada com o real, as políticas distributivas dos últimos oito anos, a demanda chinesa por commodities, o aumento da produtividade por aqui. É claro que o país ainda tem uma cacetada de problemas enormes, mas, pela primeira vez em muito tempo, temos a chance de escolher um presidente num ambiente de prosperidade. Temos a chance de escolher uma visão de país, em vez de uma solução para a crise do momento. Poderíamos estar debatendo o que queremos para o futuro, em vez de simplesmente discutir os velhos ressentimentos entre ricos e pobres, entre direita e esquerda, seja lá o que isso queira dizer.

2. É a primeira eleição presidencial de um país conectado. Mais de 60% do Brasil têm acesso à internet, um meio horizontal de informação. Era nossa chance de fazer um debate participativo, com candidatos dispostos a ouvir ideias da sociedade em vez de simplesmente se portarem como sabe-tudo.

3. É a primeira eleição presidencial após o crash de 2008. E também a primeira após o consenso sobre a gravidade das mudanças climáticas. Era nossa chance de discutirmos oportunidades e riscos para o país. De propormos modos de posicionar o Brasil estrategicamente como uma economia verde, levando em conta a imensa riqueza de biodiversidade daqui, o imenso potencial produtor de energia limpa – e a imensa vulnerabilidade brasileira às mudanças climáticas.

Por tudo isso, vou às urnas no domingo com um gosto amargo na boca: a sensação de que estamos perdendo essas oportunidades. O debate, no geral, foi tão ressentido e pobre quanto sempre é. Os políticos são os mesmo de sempre e têm se comportado como sempre se comportaram: donos da verdade, paternalistas, sem disposição para debater com a sociedade. A internet foi cerceada pela Justiça Eleitoral, que proibiu publicidade online e fez o que pôde para preservar um modelo eleitoral caquético no qual o tempo de TV é distribuído de maneira a impossibilitar que ideias novas surjam e sejam debatidas. O governo abusou de seu poder e menosprezou a liberdade de imprensa. A oposição tradicional agiu com histeria e mal falou de propostas.

Ao longo dos últimos dois meses, tentei entrevistar Dilma e Serra sobre como a discussão sobre mudanças climáticas muda a forma de administrar o país. Nenhum dos dois respondeu às minhas seguidas solicitações. Estavam com a agenda lotada, me disseram seus assessores. Eu disse que estaria disponível a me adequar à agenda deles e dei um prazo de mais de um mês para que me encaixassem. Nenhum dos dois achou que o tema justificaria o esforço.

Por tudo isso, não me sobraram muitas dúvidas sobre como votar no domingo. Não dá para votar pela eternização no poder de um grupo político, ao custo do enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras. Não dá para votar numa oposição sem ideias, sem disposição para o debate. Não dá para votar em campanhas eleitorais criadas por marqueteiros, gente que não acredita em nada, apenas usa da ciência da persuasão para dizer ao eleitor aquilo que as pesquisas dizem que o eleitor quer ouvir. Não dá mais para eleger PT e PSDB enquanto eles estiverem coligados com partidos que não ousam dizer seus nomes.

Antes dava. E, justiça seja feita, tanto PSDB quanto PT entregaram o Brasil, ao fim de seus governos, melhor do que o receberam em muitos aspectos. Mas não dá mais. O mundo mudou e não dá para votar como se ele não tivesse mudado – como se as mudanças climáticas fossem lenda, como se o Brasil não tivesse potencial para produzir mais que commodities, como se a crise de 2008 não tivesse acontecido, como se a internet não existisse, como se o Brasil não precisasse de um novo modelo de educação, de um novo sistema político, de novas ideias. Não dá para não mudar.

E por isso resolvi declarar publicamente meu voto em Marina Silva. Não estou me filiando ao seu partido, nem me engajando em sua campanha – estou apenas declarando meu voto, sem prejuízo à minha independência jornalística. (Declaro também que fiz uma doação online de R$ 100 para sua campanha na semana passada, porque acredito que as pessoas físicas deveriam sustentar as campanhas, não os grandes lobistas.)

Voto em Marina mesmo sabendo que, mesmo que ela pudesse ganhar, dificilmente teria condições de governar no atual sistema político. Voto nela em repúdio às outras alternativas que me são oferecidas. Voto nela para afirmar que, em 2014, não quero ter que sentir de novo o gosto amargo de perder uma oportunidade.

Voto nela com satisfação. Espero que o seu voto, seja ele em quem for, também lhe dê satisfação.

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Imagine que tem dois cestos de frutas em cima de uma mesa. Um deles contém uma centena de maçãs vermelhas (é o da foto abaixo). O outro tem a mesma quantidade de frutas, mas elas são variadas: bananas, ameixas, peras, goiabas, melões, graviolas, mamões, cerejas. E maçãs. A pergunta é: qual dos dois cestos é o mais rico?

Do ponto de vista da biologia não há muitas dúvidas de que o mais rico é o segundo. A evolução, que é o motor da vida no planeta, favorece a diversidade. É assim que ela opera: criando mais e mais variações. Num ambiente rico – onde há muita energia e nutrientes – a diversidade será certamente imensa. É por isso que florestas tropicais têm tantas espécies. Pouca diversidade é sinal de crise, de carência de nutrientes, de pobreza.

Mas, desde a revolução industrial, a humanidade apostou no caminho oposto: o da supressão de diversidade. Isso porque, com menos opções, fica mais fácil padronizar processos e produzir em grande escala, reduzindo custos e aumentando margens de lucros.

Há sobre a Terra algo como 80.000 plantas comestíveis. Mas a humanidade usa apenas 30 delas para suprir 90% das calorias da dieta. Há pelo menos 1 milhão de espécies de animais, mas apenas 14 delas compõem 90% do nosso cardápio. Metade de todos os medicamentos que existem no mundo vêm de substâncias naturais e, ainda assim, só testamos 1% das plantas do mundo para determinar se elas têm potencial farmacêutico.

Pegue um hectare da Amazônia – o equivalente a um campo de futebol. Em média, nesse espacinho, há 200 espécies diferentes de árvores, 1.300 espécies de aves, 1.400 espécies de peixes, 300 espécies de mamíferos. Estou falando apenas de um hectare: no hectare ao lado as árvores, os peixes, as aves e os mamíferos são outros, muitas vezes completamente diferentes. Numa só planta amazônica, é possível encontrar até 80 espécies diferentes de formiga.

Até hoje, para explorar esse hectare, seguimos a lógica industrial: cortamos tudo, separamos as pouquíssimas espécies de madeira com valor comercial e queimamos o resto. No lugar, tentamos fazer com que haja uma espécie vegetal só – geralmente capim para alimentar uma única espécie animal, a vaca.

Interessante é que a estratégia de suprimir diversidade está presente em várias esferas do nosso sistema econômico, não só no uso da terra. Veja por exemplo as políticas de recursos humanos das grandes empresas. Lembro que fiz um curso de “gestão de pessoas”. O consultor de RH, supostamente um psicólogo, nos ensinou que só há quatro tipos de pessoas e que nosso trabalho como gestor é identificar de que tipo cada um na equipe é e tratá-lo propriamente.

Outro exemplo: a lógica de nossas cidades é pensar em deslocamentos de grandes grupos de pessoas. Para isso se criam linhas de ônibus e vias para carros. Mas não se leva em conta que pessoas diferentes gostam de se deslocar de formas diferentes, e não se abre espaço para alternativas. Cidades que têm grande diversidade de opções de transporte, como San Francisco e Copenhague, tendem a ter menos trânsito e um espaço urbano mais feliz.

O que estamos fazendo em todas essas esferas é a mesma coisa. Pegamos cestos cheios de frutas variadas, separamos as maçãs e jogamos o resto fora. É desperdício. É abrir mão da riqueza para viver com escassez. É pouco inteligente. Com o avanço tecnológico que alcançamos, em especial no que se refere às tecnologias da informação, poderíamos fazer melhor que isso. Poderíamos inventar um sistema que preserve a diversidade enquanto produz.

Semana passada mandei aqui pelo blog uma carta aberta ao prefeito Kassab. Era uma ideia para ele: um projeto de transformação urbana para São Paulo. Poxa, Gilberto, você não vai responder minha cartinha? Não vai escrever? Não vai mandar notícias?

Brincadeiras à parte, é óbvio que não fiquei surpreso com a falta de resposta do prefeito da maior cidade do país. Era isso mesmo que eu esperava: o silêncio. É esse o costume neste país: governantes não conversam com a sociedade sobre ideias (se eu fizesse uma denúncia pessoal, aí sim certamente receberia uma resposta).

Exemplo do que estou dizendo está na campanha eleitoral em curso. Os candidatos estão o tempo todo na TV pedindo o seu voto, mas quantos deles estão propondo um diálogo sobre ideias? Quantos deles estão dispostos a ouvir sugestões da sociedade, da academia? Quando muito, eles prometem fazer isso, construir aquilo, mas não se trata aí de discutir ideias. Os candidatos falam como quem conhece todas as respostas, com o tom de quem sabe a verdade. Eles não querem dialogar: querem apenas nos convencer de que os sabichões são eles.

Aí o debate político fica miserável de pobre. E o único assunto no qual a maioria dos candidatos fala é “eficiência”. Lógico que não sou contra eficiência. Seria muita burrice da minha parte se eu fosse: pago um terço do meu salário em impostos e recebo um serviço porco em troca. Mas eu preferia ver políticos propondo novos jeitos de fazer as coisas, em vez de apenas fazerem auto-elogios na linha “eu faço melhor”.

Outro dia falei aqui sobre a necessidade de termos um país mais criativo. Alguns leitores comentaram dizendo que criatividade é para o setor privado, ao setor público não cabe inventar nada. Pois discordo imensamente. Verdade: precisamos sim reduzir corrupção e aumentar eficiência. Mas, mais do que tudo, precisamos criar condições para um governo que saiba inventar.

Trânsito de SP: o que é mais fácil? Asfaltar mais ou arrumar uma solução criativa?

A falta de criatividade do poder público brasileiro custa imensamente caro para o Brasil. Quer um exemplo? Os governos sabem construir ruas, avenidas e viadutos. Mas não sabem criar sistemas inteligentes de sinalização. As ruas brasileiras são labirintos confusos, cheios de gente perdida. Garanto para você que uma equipe criativa multidisciplinar, sem asfaltar um centímetro quadrado das cidades, seria capaz de melhorar o fluxo do trânsito, melhorar a experiência de se locomover, tornar as pessoas mais móveis e mais felizes nas ruas.

Outro exemplo: quando se fala sobre energia no Brasil, a única conversa é sobre construir novas usinas. Mas o estado é incapaz de soluções criativas que reduzam consumo, incentivem as pessoas a produzir energia em pequena escala, a diminuir desperdício. Caramba, quase todo o país ainda toma banho com chuveiro elétrico! Se fizéssemos um esforço criativo para mudar isso poderíamos reduzir tanto o consumo nacional de energia que daria para vender Itaipu pro Paraguai. Mas alagar um teco da Amazônia é mais fácil.

Mais do que tudo, a falta de criatividade do país é um imenso desperdício de dinheiro porque torna o serviço público mortalmente chato. Ambientes criativos atraem gente produtiva, jovem, talentosa. Ambientes burocráticos não. Ambientes criativos são divertidos para se trabalhar – tão divertidos que nem precisam pagar tão bem para atrair talentos.

Lógico que há exceções. Há nos governos um monte de ilhas de talento e criatividade. Mas são ilhas, não é a regra. Se fossem, se os governos tivessem normalmente o hábito de discutir ideias e de trabalhar para efetivamente melhorar a vida das pessoas, todo mundo ia querer participar do trabalho de governar. Se todo mundo participasse, economizaríamos dinheiro e criaríamos um ambiente em que seria muito mais difícil roubar, porque todo mundo estaria atento.

Poxa, prefeito, discutir ideias vale a pena. Responde minha carta, vai!

Hoje de manhã vi este grafite incrível no beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo.

Me fez pensar. Você já notou que não se vê mais crianças na rua em São Paulo? Pelo menos não no centro expandido.

Comento isso por aí, parece que muita gente acha normal. Com essa violência, com esse trânsito, criança não pode mesmo ficar na rua. E elas têm videogames ótimos e super educativos. Elas nem querem mesmo sair.

Pois tem uma coisa que eu preciso dizer: não é normal.

Crianças pequenas têm praticamente todas os neurônios que terão na vida adulta. A diferença entre elas e nós é que elas têm pouquíssimas conexões entre os neurônios. Desconectados, eles não são capazes de fazer nada muito complexo. Em compensação, as desconexões tornam o cérebro imensamente flexível, capaz de aprender qualquer coisa. Com o tempo, essas conexões – as sinapses – vão se formando e a mente vai se tornando capaz de coisas impressionantes.

Para que as sinapses se formem, é preciso estímulos. Se o cérebro tem que lidar com uma situação na tenra infância, torna-se cada vez melhor em tarefas do mesmo tipo. Se ele não treina, não aprende. E, depois que chega a idade adulta, é tarde demais – a maleabilidade do cérebro vai embora.

Pois então, crianças que não saem à rua estão simplesmente abrindo mão de uma imensa quantidade de estímulos. Tem uma pesquisa dos anos 1990, do urbanista americano Bruce Appleyard, que mostra que meninos e meninas que vão de carro para a escola são menos capazes de desenhar mapas e de entender abstrações espaciais. Ao negar-lhes a rua, estamos simplesmente impondo limitações cognitivas aos nossos filhos. Em nome da segurança deles (um valor obviamente positivo), estamos tornando-os menos capazes de pensar o espaço e de se situar no mundo.

Pior ainda: ao fazer isso, restringimos o círculo social das nossas crianças. Elas interagem com menos gente e todas são muito parecidas entre si (é na rua que as diferentes classes sociais se encontram). Isso também é uma falta de estímulo, e também determina indivíduos que, quando crescem, serão menos capazes de conviver com a diversidade. Num mundo globalizado, essa habilidade é fundamental para ter sucesso.

Outro efeito é que, por passar menos tempo nas ruas, nossas crianças tornam-se menos felizes. Uma pesquisa de 2008 (Stutzer & Frey) mostra que, estatisticamente, pessoas que passam muito tempo dentro de carros são mais infelizes e têm menor capacidade de encontrar sentido na vida.

Resolver esse problema, na minha opinião, deveria ser a maior preocupação do prefeito de São Paulo. Para mim, se uma cidade reduz a capacidade cognitiva e a felicidade de suas crianças, não se pode dizer que seja uma cidade boa. Nada pode ser mais importante que isso.

Daqui a 4 anos, haverá Copa do Mundo no Brasil. A abertura, aparentemente, será em São Paulo.

Gente do mundo inteiro virá para cá. Eles vão andar pelas ruas de São Paulo e vão notar uma coisa: não há crianças brincando na rua.

Outro dia conheci alguns jovens arquitetos que têm um projeto interessante que lida com essa questão. A ideia básica é criar a “linha verde”, uma rede de parques lineares, construídos no meio de ruas secundárias, cercados de árvores, com uma grande ciclovia e vários espaços de lazer (cinemas, mesas de jogos, bibliotecas, quiosques, futebol, vôlei, taco, bocha). Essa linha verde ligaria todas as atrações do centro expandido da cidade – museus, estádios, praças e parques, monumentos, ruas comerciais. Ligaria também estações do metrô e poderia ser um bom caminho para chegar de qualquer lugar a qualquer lugar no centro expandido. Seria um espaço público, no qual a cidade se encontraria.

O projeto não sairia muito caro e seria viável ter o sistema basicamente pronto a tempo para a Copa. Os arquitetos nem fazem questão de ser remunerados: ficariam satisfeitos em ver a ideia implantada. A cidade não perderia nenhuma pista de circulação para os carros – só teríamos que abrir mão de vagas de estacionamento no meio-fio.

Não sei você, mas eu acho que a felicidade das nossas crianças vale mais do que o espaço para estacionar o carro de alguém. Voto em implantarmos esse projeto.

Prefeito, você tem uma ideia melhor para lidar com esse problema?