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Arquivo mensal: julho 2009

aguasvivas

Águas-vivas gigantescas, do tamanho de geladeiras, infestaram a costa do Japão. Eram tantas, e tão imensas, que foi preciso fechar temporariamente algumas usinas nucleares que abastecem Tóquio de eletricidade. Navios, usinas de dessalinização e mineradoras também já tiveram que parar suas operações para limpar suas entradas de água, entupidas de águas-vivas. Na Irlanda do Norte, em novembro de 2007, uma invasão de pequenas águas-vivas deixou a água vermelha. Ao longo da costa norte-irlandesa, populações inteiras de salmão morreram sufocadas.

Muito se fala do quanto as mudanças climáticas prejudicam espécies mundo afora. Mas nem todo mundo é prejudicado pelas temperaturas mais altas e pelo clima mais imprevisível e violento. Algumas espécies se dão muito bem. Mosquitos, por exemplo. Baratas adoram. E, ao que tudo indica, águas-vivas também.

É o que eu descobri numa reportagem assustadora publicada na revista Earth Island Journal, cuja sede fui visitar na semana passada em Berkeley, Califórnia. A matéria diz que, na verdade, ninguém tem certeza de que águas-vivas estão mesmo proliferando – basicamente porque não tem jeito de contar esses bichos quase invisíveis que passam parte de suas vidas escondidos no fundo do mar na forma de pólipo. Suas populações variam demais naturalmente. Mas todo mundo que acompanha-os de perto concorda que as infestações catastróficas, como as descritas acima, estão ficando cada vez mais frequentes.

Não faltam razões para isso:

  • Elas gostam de água quente. Tradicionalmente proliferam em águas tropicais. E o aquecimento global está tropicalizando o mundo.
  • Elas competem contra os peixes por plâncton. Como estamos acabando com os peixes, elas fazem a festa.
  • O homem criou várias “zonas mortas” no mar. São bocas de rio, que desembocam um monte de poluição. Essa poluição faz proliferarem algas, que tapam a luz do sol e matam o fitoplâncton. Sem fitoplâncton, os peixes morrem ou mudam. Essas “zonas mortas” são dominadas por águas-vivas, que prosperam sem competição.

Enfim, o clima é um sistema complexo. Quando se altera um sistema complexo, como a humanidade está fazendo agora, há um monte de consequências, algumas delas totalmente imprevisíveis. Parece que a proliferação de águas-vivas vai ser uma delas, para azar dos peixes e dos banhistas.

Enquanto isso, um chef sino-britânico chamado Joe Lai desenvolve receitas com águas-vivas. Segundo ele, elas são altamente protéicas, mas quase não têm gordura. Enquanto não descobrirmos um jeito de eliminarmos a causa da praga das águas-vivas – o efeito estufa – só nos restará aprender a comê-las.

Foto: tirei no aquário de Monterey, Califórnia

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Engraçado como o tema do meu último post – homossexualidade – ainda incomoda. Os comentários me deixaram surpreso pela alta densidade de preconceitos: gays são histéricos, são nojentos, são exagerados.

Eu não deveria me surpreender. Estou cansado de saber que a sociedade brasileira, incluindo aí gente bem informada, ainda não aprendeu a tratar o assunto com naturalidade. Senti isso na pele quando publiquei uma reportagem de capa na revista Superinteressante, com uma constatação científica: a de que comportamento homossexual é parte da natureza, tanto quanto o sexo heterossexual. Recebi emails tão agressivos que perdi o sono. Um leitor picotou a revista e mandou-a pelo correio embrulhada em papel higiênico. Papel higiênico usado.

A capa polêmica, de 1999

A capa polêmica, de 1999

Domingo passado, a New York Times Magazine, revista que eu adoro, trouxe um artigo sensacional de Mark Gevisser, jornalista político sul-africano. Mark conta no texto como foi o seu casamento. Ele foi ao Escritório de Assuntos Internos de Edenvale, na África do Sul. Chegando lá, lhe perguntaram: “do mesmo sexo ou sexos opostos?” Chocado com a naturalidade da pergunta, ele levou algum tempo para responder: “do mesmo sexo”.

Mark não é histérico. Ele é um jornalista respeitado, autor de um ótimo livro sobre a democracia sul-africana e colaborador do melhor jornal do mundo. Ele não se casou para “copiar os heterossexuais”. Aliás, ele nem queria casar. Mas, como está de mudança para um emprego no exterior, a união civil o ajudaria com a burocracia.

O Escritório de Assuntos Internos, onde Mark se casou com seu marido, é o mesmo lugar onde, há não muito tempo, se fazia a classificação racial do apartheid. Eram eles que decidiam quem era branco, quem era negro e quem era mestiço – e essa decisão selava o destino da pessoa. No mesmo prédio que um dia foi sede da desigualdade, hoje se celebram os direitos iguais para todo mundo, branco ou negro ou gay ou hetero. A África do Sul, pátria da desigualdade, mudou desde o tempo do apartheid. E nos deixou para trás em termos de tolerância.

Não faz muito tempo, muitos brancos, no Brasil e na África do Sul, acreditavam sinceramente na sua superioridade sobre os negros e na justiça de terem mais direitos que eles. Hoje, felizmente, isso mudou. Pode ser que leve algum tempo, mas não tenho dúvidas de que chegará o dia em que as pessoas não acharão normal que heterossexuais tenham mais direitos civis que homossexuais.

Ah, Mark, que é branco, casou-se com um homem negro. (Já estou vendo a cara de nojo de alguns leitores…)

outrage

Quando adolescentes se juntam para infernizar seus colegas gays, ou bater neles, não é incomum que haja meninos gays entre os agressores. Não é difícil de entender por quê: num mundo em que ser gay é algo terrível, condenável, imoral, participar de um ataque covarde pode ser um jeito de desviar a atenção de si para os outros. “Eu não sou gay. Até bato em gays.” É também um jeito de descarregar a raiva contra sua própria homossexualidade.

O chocante é que esse padrão não se dá apenas entre crianças. Adultos gays não assumidos estão entre os maiores inimigos dos homossexuais. É esse o tema do documentário Outrage, de Kirby Dick, que assisti esta semana. O filme revela que vários dos políticos mais conservadores dos Estados Unidos, os mais ferozes oponentes de direitos para homossexuais, na verdade são gays firmemente trancados em seus armários.

O filme desmascara um a um esses políticos: os deputados David Dreier, Ed Schrock e Jim McCrery, o senador Larry Creig, o gerente de campanha de Bush Ken Mehlman, o atual governador da Flórida, Charlie Crist. Todos são republicanos. Todos são conservadores. Todos têm um longo histórico de votar contra o direito ao casamento ou à adoção, contra a inclusão da homofobia entre os chamados “crimes de ódio”, contra qualquer direito aos homossexuais. Não se trata de mera boataria: o documentário toma o cuidado de mostrar provas: fotos, gravações, depoimentos.

O problema de reprimir a sexualidade é que uma hora ela escapa (vide os escândalos recorrentes na Igreja Católica). Esses políticos conservadores, forçados a fingir que são maridos responsáveis e defensores dos valores da família, cedo ou trade escorregam e são flagrados em bares gays, na companhia de garotos de programa, ou em banheiros públicos. Muitas vezes eles são denunciados por ex-parceiros, que se irritam com a hipocrisia. Um blogueiro chamado Michael Rogers fez sua carreira desmascarando políticos anti-gay que na verdade são gays.

Saí do filme com a sensação de que muito do movimento conservador contra os direitos dos homossexuais na verdade se apoia em líderes que são gays e não conseguem lidar com isso. Não é incrível?

Foi inevitável fazer o paralelo com o Brasil. Aí, como aqui, a imprensa não fala abertamente do assunto. Mas talvez o sistema americano, com seu apego aos “valores da família”, acabe favorecendo a hipocrisia, o fingimento, principalmente entre os conservadores. O fato é que em nenhum dos dois países os homossexuais políticos costumam sair do armário: o risco eleitoral seria grande demais, eles avaliam. Será que seria mesmo? Ou será que parte dos eleitores acabaria premiando sua sinceridade? O que aconteceu na última eleição para prefeito de São Paulo, quando um ataque preconceituoso contra a sexualidade de Gilberto Kassab saiu pela culatra e acabou ajudando a elegê-lo, me faz ter essa dúvida.

Quando vim morar na Baía de San Francisco, não demorei para conhecer uma tradição da cidade: a Critical Mass, ou “massa crítica”, a mais anárquica manifestação de que já participei. Minha primeira foi em setembro de 2007, quando o “evento” completava 15 anos. Pegamos nossas bikes e fomos participar (você pode ver algumas das fotos no blog que eu tinha na época. Cuidado! Há cenas de nudez!!!!).

Funciona assim: toda última sexta-feira de cada mês, às 6 da tarde, ciclistas da cidade inteira se encontram em uma pracinha (em frente ao Ferry Building). Eles se concentram lá, vão se acumulando, até que alguém começa a buzinar. As buzinas vão se espalhando, a praça vira uma barulheira e aí, de repente, alguém começa a pedalar e os outros vão atrás.A massa crítica foi atingida. Não há roteiro definido. Quem estiver na frente decide onde virar, quem vier atrás segue. O prefeito não gosta (tive a chance de participar de uma entrevista com ele, e ele suspirou desanimado quando eu disse que costumava participar). A polícia não gosta. A maioria dos motoristas não gosta. O trânsito fica uma loucura. Mas é uma das muitas tradições esquisitas desta cidade esquisita e ninguém consegue acabar com ela. Acusam os ciclistas de parar o trânsito. Os ciclistas respondem que não param o trânsito: eles são o trânsito.

Para nós, ciclistas, é uma delícia. Uma vez por mês, pelo menos por alguma horas, a cidade é nossa. As ruas são tomadas por gente fantasiada em bicicletas estranhas. Muita gente carrega caixas de som e a música toma as ruas. O Critical Mass é tão legal que, ao longo dos últimos 17 anos, foi lentamente se espalhando pelo mundo. Hoje acontece em bem mais do que 300 cidades, incluindo quase todas as maiores cidades brasileiras (aí ele chama “bicicletada”).

familia

Mas, afinal, o que é o Critical Mass? É uma manifestação, uma passeata, um protesto, uma festa, uma invasão? Morria de curiosidade e não encontrava resposta para essas perguntas. A imprensa mal tratava do assunto. Aí encontrei um livrinho, e o organizador era o Chris Carlsson, parte do grupo que começou a história, em 1992. Acabamos conhecendo o Chris por acaso, e ele nos contou todas as histórias.

Da direita para a esquerda, minha mulher Joana, Chris e a mulher dele, a mexicana Adriana

A partir da dir., minha mulher Joana, Chris e sua mulher, a mexicana Adriana

O Chris é uma enciclopédia de contracultura e de conhecimento da história desta cidade. Editor e escritor, ele tem uma porção de livros sobre ecologia urbana, história dos movimentos sociais, mudança na relação com as cidades. Esta semana aparecemos na casa dele com uma garrafa de cachaça (ele é apreciador) e em troca ganhamos um belo jantar mexicano e uma caminhada guiada pela cidade. Não foi um tour comum: em vez de cartões postais vimos jardins comunitários, ruínas, espaços públicos tomados a força e outras relíquias da história da resistência dos moradores de San Francisco contra a morte da alma da cidade. O Chris contou que em meados do século 20 houve um projeto para aterrar toda a baía de San Francisco. A cidade viraria uma planície suburbana, sem fog nem ventania, com casas grandes e quintais: igual a qualquer cidade americana. Os moradores se organizaram e mataram a ideia. Para manter San Francisco estranha.

Hoje há gente pedalando em todos os cantos de San Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite. As ciclovias e faixas compartilhadas estão por toda parte. Motoristas respeitam os ciclistas e reconhecem que eles ajudam a reduzir o trânsito. Todas essas conquistas devem um pouquinho à Critical Mass, que 17 anos atrás começou a colocar essas questões em discussão.

Interessante estar em San Francisco, a capital mundial da contracultura, um ano depois do derretimento do sistema financeiro internacional. A cidade, que é rica pacas, dá alguns sinais de sentir a crise – lojas fechadas, gente preocupada. Mas, mais que tudo, o que eu sinto no ar é uma efervescência, uma sensação de que a cidade aposta suas fichas em ajudar a mudar o mundo depois do desastre.

Exemplo: esta semana, o jornal semanal alternativo SF Guardian tem uma edição especial – The Free Issue, “a edição grátis”.

guardian

A tese do jornal é que, nos últimos anos, caímos numa armadilha: fomos convencidos pelas corporações de que tudo na nossa vida se resume a transações financeiras. E que isso esvaziou nossas vidas de senso de comunidade, de colaboração, de generosidade. Preferimos contratar alguém para um serviço, em vez de pedir um favor para a vizinha – porque tememos a obrigação social que acompanha um favor, que é retribuir um dia. E não queremos ter que convidar a vizinha para um churrasco em casa.

O jornal traz uma defesa de um novo modelo, que é bem simples. Começa com você. Ofereça favores. Ajude. Doe coisas que você não usa para quem você acha que vai usar. Se gente suficiente fizer a mesma coisa, a tendência é de que uma hora esses favores desinteressados comecem a voltar para você. Afinal, se todo mundo doa, todo mundo recebe. E aí, como você vai ganhar coisas de graça, você não vai precisar de tanto dinheiro para viver. E talvez possa se estressar menos, trabalhar menos, se preocupar menos.

Aí o jornal vem com um guia de coisas grátis para fazer nesta cidade caríssima. Bem legal.

Anteontem fomos visitar um amigo, o Chris Carlsson, que já vive em função desses valores. Ele é um dos ciclistas que, nos anos 80, criou o Critical Mass, o movimento anárquico de invasão das ruas pelas bicicletas que depois se espalhou pelo mundo inteiro. No meu próximo post, conto um pouco mais dele.

Como todo mundo, eu sei racionalmente do impacto da globalização no mundo e na economia. Mesmo sabendo disso, às vezes eu me surpreendo quando a sinto encostar na minha vida e percebo na prática o impacto da facilidade de se conectar com pessoas do outro lado do mundo.

Por exemplo, esta semana nós comemos uma moqueca preparada pela Violet Gonda, jornalista do Zimbábue.

muqueca_violet

Violet apresenta um programa de rádio chamado Hot Seat, na SW Radio Africa, rádio do Zimbábue transmitida do exílio em Londres. O formato do programa é bem simples: Violet telefona de Londres para algum bambambam do alto escalão da ditadura do Zimbábue e começa a fazer perguntas que ninguém no Zimbábue teria coragem de fazer. Os políticos estão tão acostumados a não ser desafiados que não têm o jogo de cintura de driblar as perguntas. Acabam denunciando sua visão tosca de mundo e aparecendo nus diante da audiência. Em vez de ditadores temíveis, eles acabam soando como bobocas sociopatas. O Hot Seat, transmitido ao Zimbábue pela internet (antes era também por ondas curtas, mas a ditadura de Mugabe andou comprando equipamentos chineses para embaralhar o sinal), é um sucesso.

Bom, claro que os cupinchas de Mugabe não curtem muito o trabalho da Violet. Ela teve seu passaporte confiscado e está banida de seu país natal há quase uma década. Nos últimos anos, ela ficou com medo de que sua família corresse risco e levou todo mundo para Londres: pai, mãe e 3 irmãos. Conheci Violet ano passado, quando ela foi minha colega num programa para jornalistas do mundo todo aqui na Califórnia. Nosso terceiromundismo nos aproximou e ficamos amigos. Agora, que estamos de férias, viemos nos encontrar aqui na Califórnia.

Ensinamos a Violet a fazer moqueca. O pimentão poderia ter ficado um pouquinho mais cozido e os camarões deveriam ter sido descascados, mas, no geral, a muqueca africana ficou uma delícia. Vestida de branco numa esquina de Salvador, Violet passaria fácil por local.

Num mundo sem globalização, seria impossível conhecer Violet. Seria impossível ela experimentar uma moqueca. Seria impossível um jornalista brasileiro trocar ideias com uma jornalista do Zimbábue sobre as diferenças no autoritarismo de seus dois países. Seria impossível criar alianças internacionais de gente comum com ideias alinhadas. Agora tudo isso é possível.

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Passei os últimos dias num encontro de jornalistas na Universidade Stanford. Era uma reunião dos ex-bolsistas de um programa do qual eu participei no ano passado – tinha lá centenas de veteranos do programa, o mais velho está perto de completar 90 anos, eu era um dos mais novos. A sensação que eu tinha era a de estar numa convenção de escribas logo após a invenção de Guttenberg. A sensação de que minha profissão está morrendo. Meus colegas, principlamente os americanos, estão perdendo o emprego a rodo, vítimas da concorrência da internet. A ansiedade batia no teto. Ninguém sabe como será o futuro.

Esta foto aí acima é da excelente palestra do Leonard Downie Jr, vice-presidente honorário do Washington Post. Apesar da aparência jovem, Len Downie tem história. No começo da carreira, ele foi o editor da mais famosa série de reportagens da história americana, o escândalo do Watergate, que terminou com a renúncia do presidente Nixon. Downie não teve dó da audiência. Ele disse abertamente que talvez o jornalismo volte a ser aquilo que sempre foi ao longo da história, até os anos 60: uma profissão não muito bem paga, que as pessoas fazem mais por paixão do que por dinheiro durante a juventude, e que depois abandonam para fazer outras coisas. Mais uma paixão do que um negócio.

Mas nem tudo na palestra foi pessimismo. Downie está empolgadíssimo com as experimentações jornalísticas que estão acontecendo país afora: websites investigativos especializados, projetos apoiados por universidades, gente nova, talentosa, ética, inventando coisas e fazendo acontecer. Os jornais estão fechando, mas o jornalismo de qualidade não está acabando, pelo contrário. Tem muita gente boa fazendo coisas interessantes. E nunca se consumiu tantas notícias. O que está difícil é transformar isso em um grande negócio: tudo é pequeno, fragmentado, experimental.

São tempos aterrorizantes para a minha profissão. São também tempos fascinantes: de novidades, de inovação, de possibilidades. De gente jovem se reunindo para tomar o espaço dos gigantes. Muita gente está sofrendo, inclusive meus amigos americanos. Sempre há sofrimento quando há mudanças. Mas vai ser interessante ver no que isso vai dar.

Se pensarmos bem, a ideia de derrubar árvores para imprimir maços de folhas que são entregues nas casas das pessoas com notícias de economia mesmo que o sujeito só queira saber de futebol não faz mesmo muito sentido. A questão é: como arrumar um substituto para isso que não enfraqueça a democracia?